Olhos

Seus fios longos e escorridos sempre tentavam esconder um lado de sua face. Sua pele escura e seus olhos puxadinhos costumavam caminhar rápido pelas árvores. Seus pés eram ágeis e delicados, mesmo com a ausência de proteção. Na falta de uma companhia ela podia contar com alguns pássaros durante o dia e com as estrelas durante a noite. Gostava de caçar sapos pelo simples motivo de que eles podiam pular muito longe de uma forma engraçada. Detestava cobras!! Sempre que via uma sucuri se preparar para o bote pensava “acemira” e lançava uma flecha na parte de baixo da boca. Acemira quer dizer “O que dói”. O nome dessa índia aventureira era Eçauna, porque tinha olhos da cor da noite. Eçauna tinha medo de trocar palavras com outras pessoas de sua tribo, não sabia olhar nos olhos de ninguém, tinha medo de ser encarada. Olhos que fitam matam a alma. Preferia conversar com seus pássaros, eram melhores ouvintes e mais belos a seus olhos negros. Um dia ela corria pelas árvores e esbarrou em um homem. Azar!!! Ou talvez sorte. Teçá gostava de prestar atenção em todos os detalhes, desde a cor da folha de andiroba a uma esfera amarga, o açaí. Teçá pois usava os olhos com muita força e dedicação, sua atenção era impecável! Agora os dois jovens, parados, atentos… encarando-se. Teçá tocou o cabelo de Eçauna tirando-os da frente de seus olhos. Ela por sua vez conseguiu estabelecer uma conexão com os olhos dele. Teçá desviou o olhar, pegou sua rede de pesca e seguiu caminho para o lago. Eçauna segurou fortemente suas flechas e seu arco e capturou um baiacu que estava ali, entre ela e aquele homem observador. Ela o seguira por esperar mais de um olhar. Entregou o peixe a ele e saiu. Ele segurou sua mão e agradeceu pelo peixe. Os olhos era a ligação perfeita entre medo, coragem e amor. Os olhos davam carinho, atenção e abrigo. Aqueles dois não prosseguiram com a troca de olhares, pois não era mais necessário! Tudo o que precisavam era continuar a andar… andar com as mãos dadas.

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Escrito por

♦ Brasiliense com sangue do Pará, amante de moda, culinária, cinema e música. Sonhava em ser bióloga marinha, mas vem se provando mais jornalista do que achava. Escreve menos do que sua mente produz, mas a memória deixa a desejar. Curiosa e repórter, então saiba que tudo o que disser poderá se tornar texto novo. E se a encontrar, prove seu abraço... dizem ser o melhor do mundo. ♦

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