Diário de bordo de uma mala com pingente

O conheci enquanto procurava um amigo no meio do aeroporto quando pegou minha bagagem por engano. Ele tinha os olhos mais claros que já vi, e a pele mais escura. Seus cabelos eram feito de cachos e seu sorriso trazia consigo covinhas dos dois lados do seu rosto. Tinha uma voz que não era grave, mas não deixava de ser masculina. Ele estava levando minha mala e me fez correr. “Oi, é que você pegou a minha mala. Eu sei porque tem um pingente nesse zíper.” Ele desligou o celular e me encarou por dois longos segundos. “Desculpa, eu estou com pressa e nem percebi.” Fizemos uma troca rápida e segui para onde tinha avistado meu então amigo. Passamos duas semanas desfrutando das mais belas paisagens pelo interior do Goiás. Comemos pequi, abusamos do café e voltei de lá puxando o “r”. Ao chegar no aeroporto de Guarulhos tinha perdido o dia de fazer o check in, então meu bilhete de embarque teve que ser retirado na hora do voo. Fui a última a entrar no avião. Procurei minha poltrona e percebi que só faltava eu. A maioria dos passageiros já estava dormindo porque o voo era às 4 horas da manhã. Sentei-me sem incomodar o rapaz que estava ao meu lado. A viagem pareceu mais longa que a ida e já estava impaciente. De repente o comandante avisou que iríamos entrar em uma área de turbulência. Meu coração disparou. Já tinha um medo de ficar muito tempo ali dentro e a sensação de que poderia cair a qualquer momento me fez pirar. Agarrei a mão do rapaz ao meu lado e não conseguia respirar. Comecei a ficar vermelha e o rapaz acordou assustado. Me encarou deixando a situação um pouco mais embaraçosa. Foram cinco minutos de muito terror que foram seguidos por mais meia hora de voo calmo, mas eu já não estava tão calma. Ele continuou segurando minha mão e sorriu. “Quando eu era criança também ficava com medo, mas o trabalho me cobra viagens, então acostumei.” Sorri sem abrir os lábios e ainda suava frio. “Meu nome é Marcelo, pode ficar tranquila! Qualquer coisa viro o super homem e saímos voando daqui.”
Quando o avião pousou eu soltei a mão dele, sem graça. Fechei os olhos e agradeci a algum santo que minha mãe era devota e levantei da poltrona. Ele riu e me seguiu. Quando fomos pegar nossas bagagens ele pegou a minha mala. “Essa mala é a sua e pela segunda vez pego errado.” Se eu acreditasse em coincidências agarraria ele naquele momento. Viajamos por mais muitos anos que se seguiram e viajamos para a Asia na lua de mel. Bons anos esses…

Anúncios

Escrito por

♦ Brasiliense com sangue do Pará, amante de moda, culinária, cinema e música. Sonhava em ser bióloga marinha, mas vem se provando mais jornalista do que achava. Escreve menos do que sua mente produz, mas a memória deixa a desejar. Curiosa e repórter, então saiba que tudo o que disser poderá se tornar texto novo. E se a encontrar, prove seu abraço... dizem ser o melhor do mundo. ♦

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s