Gregório

– Pensamos que voltaria casado! Como se atreve a voltar aqui? – disse sua mãe com muita rispidez.
– Não pensei que seriam tão cruéis! – respondeu-lhe o filho, senhor Gregório.
Ele havia fugido da capital há tempos e voltara sem o menor pudor. Erguia a cabeça como fazem os que não carregam culpa, mesmo sabendo que sua família não o aceitaria depois de tanto. Havia fugido no auge da idade e retornara, agora, após uma década. Ele havia se comprometido com uma moça que estava com quinze anos, e a dez o esperava. A família de Gregório era dependente da família da moça. E como poderiam agora aceitar seu retorno? Os duques não gostam de serem feitos de bobos, quanto mais por uma família simples.
– Espero que possa compreender as minhas razões, não saí de casa para viver o que chamam de vida burguesa.
– Claro que não! Você fugiu porque não queria cumprir com sua palavra. Tens medo de ser entregue e não o pertencer mais. Porém, teve a audácia de retornar e olhar-me nos olhos. Sabe quanto tempo sua mãe esperou pelo dia em que atravessaria a porta dizendo estar arrependido? – disse-lhe o pai, com ira.
– Não desejava casar-me! -respondeu-lhe o agora homem.
– Quando puderes exercer tuas vontades já não morarás debaixo de meu teto! Aqui mando, e ordeno. Sou o teu senhor e me deves a tua palavra. Quando digo, é para seu favorecimento. Em anos, realizado o que fora prometido, agradecerás por ter lhe concedido a graça de realizar tal benfeitoria.
– Amo outra! – gritou o rapaz – casamo-nos, e venho aqui para apresentar-lhes minha família.
– Como se atreve a trair minha confiança? Retornar aqui, pisar os pés no mesmo chão do qual fugistes? Vir com outra que não Aurora e falar-me sobre amor? Estás esquecido em minha vida e para sempre renegado desta família!
O rapaz, então, pegou suas malas de volta e saiu novamente da casa. Alguns minutos se passaram até que o senhor ouviu passos curtos e rápidos. Ao olhar para trás avistou três pequeninos homens, com sapatos e roupas minúsculas. Eles estavam em silêncio e parados a alguns metros dele e de sua esposa que se emocionou ao olhar-lhes.
– Pedimos ao papai para ver-mos os senhores. Agora já sei que quero ser como você vovô! – disse o maiorzinho deles.
Sua esposa corou e algumas poucas lágrimas lhe feriram o rosto. Havia se arrependido?
O velho senhor não deixou ser visto com olhar arrependido. O rapaz correu até os meninos e lhes falava baixo tom.
– Agora vamos! Lembrem-se que viemos a passeio apenas para ver vovó e vovô. Agora visto, saiamos!
Nunca mais se soube notícias daquela família tão cheia de amor que era a de Gregório. O senhor e sua esposa morreram sem a honra que teriam se seu filho estivesse casado com quem fora prometido. Nunca sentiram a felicidade que tinham ao verem os três meninos. Morreram com rancor, sem felicidade. O amor lhes faltava.

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Escrito por

♦ Brasiliense com sangue do Pará, amante de moda, culinária, cinema e música. Sonhava em ser bióloga marinha, mas vem se provando mais jornalista do que achava. Escreve menos do que sua mente produz, mas a memória deixa a desejar. Curiosa e repórter, então saiba que tudo o que disser poderá se tornar texto novo. E se a encontrar, prove seu abraço... dizem ser o melhor do mundo. ♦

Um comentário em “Gregório

  1. Nossa!!! Estou assustado até! Parabéns meu anjo, por mais q seja um simples conto, com palavras e ações modestas, eh lindo! Acaba de ganhar mais um leitor! Bjs

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