Eu, amor.

Eu fui sentido da maneira mais sincera que já pude ser. Fui vivido da forma mais doce. Eduarda e Carlos se conheceram, se apaixonaram e me dedicaram um ao outro por muitas vezes. Casaram e estavam muito contentes comigo. Fui materializado em um pequeno feto que ao ser descoberto trouxe conosco uma grande notícia. Eduarda estaria com três tumores já quase malignos, o que pareceu loucura já que ela nunca havia sentido nada. Dizem que esses monstros podem nascer de um dia para o outro. Me senti nos olhos de Carlos ao olhar sua amada derramar a primeira lágrima que trazia consigo muita força, coragem e fé. Os médicos diziam que o bebê não suportaria quimioterapias longas e que o melhor era abortá-lo. Eduarda bateu o pé. “Esse filho eu vou ter!” Carlos me sentia mais forte a cada dia, vi seus olhos derramarem-me tantas vezes, minha maior companhia era a dor. Creio que sempre a trago comigo, mas só percebi aquele dia. Juro que nunca foi minha intenção, mas não me arrependo. Em menos de seis meses aqueles dois me viveram na minha mais nobre forma e fizeram isso por oito meses e meio. Quando se aproximava o dia de ganhar-me em forma de um pequeno homem, Eduarda já não era tão forte fisicamente. A quimioterapia tinha feito bons estragos na alma gêmea de Carlos, que por sinal nunca deixou a esposa sozinha desde a notícia. Era chegada a hora de eu vir ao mundo. Iria ver os olhos daqueles que me sentiram separadamente, sendo a união entre ambos. Vi mamãe chorar de alegria e dor, vi papai sorrir e sofrer. Eduarda faria a retirada dos tumores no mesmo dia. Tivemos medo de perdê-lá e quando soubemos de sua ida urgente para UTI sentimos a desesperança nos balançar. Mas segui fortemente sendo o amor que sempre fui, aquecendo a todos os corações, deixando sonhos bons tanto aos que dormiam como aos que sofriam de olhos bem acesos. Ficamos, os três, separados por onze semanas. Pensei ter virado apenas dor, ter perdido meu posto ao que mais fere os homens. Mas Eduarda acordou. Olhou nos olhos de Carlos. Olhou nos olhos do pequeno homenzinho. Sorriu. E me sentiu. Ahhhh… Como é bom ser o amor!

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Escrito por

♦ Brasiliense com sangue do Pará, amante de moda, culinária, cinema e música. Sonhava em ser bióloga marinha, mas vem se provando mais jornalista do que achava. Escreve menos do que sua mente produz, mas a memória deixa a desejar. Curiosa e repórter, então saiba que tudo o que disser poderá se tornar texto novo. E se a encontrar, prove seu abraço... dizem ser o melhor do mundo. ♦

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