Auschwitz

Auschwitz, 12 de maio de 1942.

Vi um carro preto muito diferente dos que já tinha visto antes. Bateram na porta da nossa casa. Lembro de ver papai ser algemado e levaram-no como um animal, com chutes e tapas. Mamãe gritava e chorava muito. Eles puxaram seu cabelo e balbuciaram coisas numa língua que eu não entendia. Meu irmão mais velho tentou impedir, mas apanhou muito. Lembro que seu dente quebrou e os hematomas foram profundos. Quando levaram nossos pais e a casa ficou silenciosa corri para socorrê-lo, mas ele vomitava sangue descontroladamente. O perdi naquele dia. Subi para o quarto do meu irmão mais novo que estava chorando muito. Nos agasalhei e embrulhei ele num pano grosso, já estava perto do fim da escada quando outros três homens chegaram. Agaxei esperando que não nos vissem, mas não adiantou. Arrancaram ele do meu colo, e me puxaram pelo braço. Me jogaram num porta malas e andamos por muito tempo. Cheguei a contar até quinhentos duas vezes num intervalo entre dois sonhos. Tentava não pensar em coisas ruins. Ao me tirarem daquela parte escura, tive a sensação de muito ar frio entrando nos pulmões, por ter passado quase dois dias dentro do carro. Meus olhos demoraram muito a acostumarem-se com a luz. Três dias depois me levaram para uma sala que tinha uma fila onde se encontravam cerca de cem crianças com quase a mesma idade que eu. Nesse dia ganhei um número no braço e passei a ser reconhecido apenas por ele. A98395. Minha vida nunca mais foi a mesma.
Sentia tanto frio que meus ossos doiam, meus dentes ficaram fracos e quebraram, perdi dois dedos do pé, passei tanta fome que não sabia mais qual era a sensação de me sentir satisfeito. Procurava lugares escondidos no campo e por essa razão apanhei cinco vezes em um mês até aprender que deveria completar as atividades do dia. Acordava ao amanhecer e dormia depois que todos os alemães já estavam satisfeitos com meus serviços. Todos os dias tentava criar novos planos de fuga daquela vida desgraçada, mas sempre que pensava nisso me doía a mente só de lembrar das surras que levei. Rezava todo dia para que não fosse levado para o banho da morte. Tentava me esconder nas pilhas de corpos para o frio não me pegar, tentava comer as migalhas que encontrava… acabei percebendo que o melhor era ser uma boa pessoa. Fazia tudo da melhor forma possível. Assim consegui sobreviver, mesmo que ainda apanhasse muito.

27 de janeiro de 2013

Hoje olho para meu número, olho para os lados e não vejo nenhuma pessoa da minha família, penso no frio… choro por ter medo, por sentir a solidão, por hoje ter como me esquentar. Com quase noventa e oito anos sou o melhor que posso ser, sou o melhor avô, o melhor pai, o melhor amigo, desde que eu o possa ser. Sou um judeu que tem orgulho de ser. E amando a Deus de todo o meu coração. É difícil conviver com esses fantasmas, mas é muito mais difícil deixar de viver o meu presente.

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Escrito por

♦ Brasiliense com sangue do Pará, amante de moda, culinária, cinema e música. Sonhava em ser bióloga marinha, mas vem se provando mais jornalista do que achava. Escreve menos do que sua mente produz, mas a memória deixa a desejar. Curiosa e repórter, então saiba que tudo o que disser poderá se tornar texto novo. E se a encontrar, prove seu abraço... dizem ser o melhor do mundo. ♦

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