Amansar

Era uma vez um jovem apático que se intitulava a pessoa mais chata do mundo. Um belo dia, em sua casa, chegou uma correspondência que fora enviada por engano, era de uma moça sonhadora de uma cidade distante. Curioso ele abriu a carta. Havia um texto tão grande que ele sentiu vontade de guardá-la, mas resolveu ler assim mesmo. A carta era para um outro jovem de outra cidade mais longe ainda. Na carta, a moça registrava momentos bobos do dia, mas sabia deixar risos entre linhas. O jovem chato resolveu que responderia a moça e iniciou-se uma grande história entre dois plebeus no reino da grande família Beidim.
Em sua primeira carta, o jovem Miguel deixava sua paranoia e derramava todo o seu charme, iniciou a carta dizendo que havia recebido por engano e que tinha ficado envergonhado por ter invadido tal privacidade. Resolveu contar à moça sobre sua vida no campo e do quanto desejava fugir para a cidade fazer parte da vida agitada entre os comerciantes. Despediu-se dizendo que esperava uma resposta amiga e que contaria os dias para receber novidades de sua vida, já que a jovem Rebeca havia lhe feito rir sem menor esforço.
A moça assustou-se porque havia enviado a carta para um primo distante e não esperava conhecer outra pessoa. Ficou encantada pela forma como seu correspondente descrevera sua própria pessoa e ria da maneira como a letra se embaralhava num garrancho sem fim. Decidiu responde-lo e criaram um laço afetivo.
Com o passar dos meses, as cartas aumentaram e suas dedicatórias amorosas se iniciaram como era de se esperar. Miguel prometera visitar Rebeca e toda a sua família. Ela, por sua vez, pensava em como dizer a seu pai que estava enamorada por um desconhecido.
Quando o grande dia chegou, um ano após a primeira carta que fora enviada por engano, o jovem esteve perto de desistir, por medo ou vergonha. A moça estava com tantas borboletas na boca do estômago que estava prestes a vomitá-las. Quando ele desembarcou do velho trem e seus olhos se cruzaram sentiram medo. A insegurança lhes amedrontava. Se cumprimentaram por educação e se analisavam. Era assustador como haviam imaginado a realidade tal como era. Desde os dedos finos e compridos de Rebeca, quanto os olhos da cor do mar de Miguel.
Andaram pelo parque principal e trocaram confidencias. Assistiram a um show em pleno centro da cidade e riram como se fossem amigos de longa data. Miguel lhe roubou um beijo e a moça se assustou. “Não deveria ter me precipitado” ele pensou mais tarde. Mas a moça agarrou-lhe a mão. Era sua forma de dizer “Roube outro”.
Ao longo dos dias em que o jovem conhecia a moça se deparava com a certeza mais cruel da vida: era a hora de parar com as bebedeiras e noites em cortiços. Havia conhecido uma moça tão decente quanto sua mãe e ninguém era melhor ou parecida com sua mãe até aquele momento. Pensou nisso sentado à mesa da família Mazzari. Era difícil aceitar que sua vida parecesse mudar tão rapidamente. Após o jantar, Miguel pediu permissão ao Senhor Mazzari para passear no campo da casa. Assim que permitido saíram e sentaram no meio do campo, onde era melhor para ver as estrelas. Ele segurou sua mão e lhe jurou amor eterno. A noite que se seguiu foi apenas a primeira. Miguel pediu a mão de Rebeca e decidiram casar no dia em que ele recebera a carta por engano.
A festa foi tão grande que até hoje é lembrada nos campos de sua cidade natal. Um amor em que não importou a distância e o pouco contato físico. Eles costumavam dizer a seus filhos que nada é impossível quando se ama verdadeiramente, e que qualquer chato carrancudo pode conseguir um amor doce para amansá-lo. É a filha deles que vos escreve.

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Escrito por

♦ Brasiliense com sangue do Pará, amante de moda, culinária, cinema e música. Sonhava em ser bióloga marinha, mas vem se provando mais jornalista do que achava. Escreve menos do que sua mente produz, mas a memória deixa a desejar. Curiosa e repórter, então saiba que tudo o que disser poderá se tornar texto novo. E se a encontrar, prove seu abraço... dizem ser o melhor do mundo. ♦

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