Amor Bandido – 3º Capítulo

Querido diário,

Como já disse, o ano não foi tão bom para mim e nem para minha família. Mesmo sendo pequena (somos três pessoas) me sentia mal por tanto pepino para ser resolvido. O fato é que meus pais ficaram desempregados e eu também, e como moramos de aluguel as coisas foram ficando cada dia mais difíceis. Bom, meu aniversário se aproximava e eu queria muito poder sair com amigos para fugir dos problemas que carreguei durante o ano. Me sentia tão inútil por não poder ajudar que a maior parte do tempo contava as horas para o ano acabar logo.

No dia 4 de novembro, convidei Marcos para vir passar algum fim de semana comigo, já que era meu aniversário. Mesmo sabendo que ele não poderia e isso eu sabia mesmo, porque ele tinha dito para a minha mãe. Faço um parêntese nesse tópico porque minha mãe é aquele tipo de pessoa que faz toda e qualquer pessoa rir em qualquer situação da vida. Ela já sofreu bastante, teve câncer, não fez nenhuma faculdade e não trabalhava há cerca de dez anos. Como somos amigas e eu conto tudo a ela, foi fácil a aproximação dela com Marcos que então disse não poder vir por ter compromissos de pouco dinheiro para uma viajem em cima da hora.

Lembro-me de o convidar porque ele demonstrou ciúmes com a possível visita de um amigo em comum que mora no interior do Paraná. Foi quando ele disse que viria.

– Então, o Rafael virá para o meu aniversário. Ele vai participar de um encontro de vocacionados mas talvez fique hospedado aqui.
– Nossa, você nem me chama, mas convidou ele?
– Não seja por isso, se eu intimar você vem?
– No fim de semana do seu aniversário terei um casamento, mas posso ver algum outro fim de semana.
Me espantei quando li essa mensagem dele…. “cara, você disse pra minha mãe que não tinha como vir” pensava.

No dia 15 de novembro eu fui para uma boate com alguns amigos. A sorte que tive é que para aniversariante é tudo de graça, e como não sou muito chegada em bebidas alcoólicas, pude curtir muito a festa. Lembro que um rapaz com cerca de 1,90m, moreno e muito bonito me encarou por um tempo. Foi logo na hora de ir embora e a festa já estava ficando sem controle. Mas eu deixei com que ele me beijasse. Nunca fui de sair e beijar homens que nunca vi sem ao menos saber o nome, mas queria muito desapegar de Marcos já prevendo a possibilidade de não darmos certo.

– Vou chegar em Brasília dia 29 de dezembro. Passo o fim de ano por aí. Vamos combinar nosso roteiro, mas já aviso que também quero visitar alguns amigos.
Essa era a mensagem que me esperava quando cheguei em casa.
– Tudo bem. Não vejo a hora!

O mês passou tão devagarinho…

****

Quando se aproximou o fim do mês e a chegada dele se aproximava, minhas crises de gastrite eram comuns. Já havia me preparado e entupido de remédio para não correr o risco de passar mal ao vê-lo.

Vi chegarem 5 ônibus e todas as pessoas que saiam deles. Com uma hora de atraso ele chegou. Não vi o ônibus chegar porque precisei olhar o celular com mensagens nervosas de alguns amigos preocupados com esse encontro “às escuras”. Ele era tão alto quanto eu pensei e era idêntico às fotos. Mas havia algo de errado…

Quando nos vimos, não nos tocamos, não dissemos o oi que eu esperava… ele nem sequer me abraçou. E para quem já falava de casamento (mesmo que apenas brincado) era bem distante. Fomos de metrô até um shopping e almoçamos juntos. Faltava algo ali.

Sentamos, comemos, conversamos. Fomos até o parque da cidade e curtimos um dos melhores climas de Brasília naquela época que deveria ser fria e estranhamente tinha um sol fresco. Foi quando ele resolveu me contar toda a história da vida dele.

– Minha mãe me teve com 46 anos, foi gravidez de risco; meu pai nos abandonou; eu era bem revoltado por causa dele; há algum tempo atrás tive que pedir perdão a ele; fui molestado quando criança e isso me causou muito sofrimento.

Nada me assustou e nada me surpreendeu. A algum tempo eu vinha ouvindo histórias cabeludas e dignas de novela global, sabia que para alguns a vida vinha com tanta dor que o corpo costumava não aguentar. Mas o que me doeu na hora foi a declaração a baixo:

– Eu tenho um defeito, não consigo ser fiel. É como se fosse viciado, como se tivesse uma necessidade enorme como um dependente químico.

Eu sei que as pessoas não são santas e que cada um tem a sua história. Muitas coisas acontecem para nos fazer crescer, mas muitas são apenas consequências de decisões erradas que tomamos. Eu só sabia que não queria um relacionamento assim, cheio de insegurança e logo no primeiro encontro.

Depois de conversarmos sobre nossas vidas e nos conhecermos um pouco melhor, ele foi para a casa de um amigo. Só nos vimos na sexta-feira, 2 de janeiro. Eu esperava passar o réveillon com ele, mas ele pareceu não fazer questão.

Foi um dia muito bom. Nos beijamos a primeira vez e ele conheceu minha família. Pudemos namorar ao luar e aproveitar o tempo que tínhamos. Uma semana depois ele iria embora e queríamos aproveitar cada segundo. Mas o dia voou. E logo era sábado. O dia em que a história mudaria completamente o rumo.

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Escrito por

♦ Brasiliense com sangue do Pará, amante de moda, culinária, cinema e música. Sonhava em ser bióloga marinha, mas vem se provando mais jornalista do que achava. Escreve menos do que sua mente produz, mas a memória deixa a desejar. Curiosa e repórter, então saiba que tudo o que disser poderá se tornar texto novo. E se a encontrar, prove seu abraço... dizem ser o melhor do mundo. ♦

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