Uma jovem, um cobrador e um ônibus

Ela costumava ter medo das palavras porque já havia sofrido com algumas. Seguia uma rotina de passar pelos mesmos lugares nos mesmos horários; conhecia de vista todas as pessoas; sempre sentava do mesmo lado no ônibus e, na maioria das vezes, dormia no caminho, mas isso após ter lido algumas páginas de um livro qualquer.

Passos totalmente calculados.

Costumava encarar os rostos novos e vez em sempre imaginava a vida deles; como o que poderiam ter vivido, que tipo de família faziam parte, que músicas estavam escutando e, isso regularmente, se já teriam amado alguém.

Ela estava ouvindo o Veloso, como todos os dias, fez o sinal para que o ônibus parasse, subiu, passou pela roleta e sentou-se ao lado esquerdo, num banco alto. Ela gostava daquele lugar em específico porque conseguia ver a todos e se alguém se aproximasse dela seria notado rapidamente.

Levantou a cabeça e olhou a redor. Ninguém novo, pensou. Pegou seu livro, leu umas dez páginas e pegou no sono. Quando o caminho mudou de uma reta eterna a uma curva acentuada, ela acordou um pouco assustada. “Estou chegando”.

E então ela notou algo.

Olhou para frente e avistou um olhar cansado e tristonho. Aparentava uns cinquenta anos, talvez menos, talvez mais. “Será que ele terminou os estudos? Deus! E se tiver muitos filhos para criar ganhando tão pouco? Será que ele deu um beijo na esposa antes de sair? Será que ele tem uma esposa? Ele parece triste… será que se eu for lá dar um abraço ele vai se envergonhar? Ou brigar comigo? ” Pensou.

“Ah! Mas sua aparência era de um senhor desses formosos, uma beleza cansada da idade… como esses senhores dos anos sessenta. Ele poderia ser um galã de novelas antigas, daquelas que os homens andam vestidos de terno e gravata com um chapéu meio Chaplin. Será que ele dançaria na chuva? Seria engraçado. ”

“Minha nossa! Tenho que descer! ”

– Espere, motorista! Abra por favor.

A pena é momentânea. E a vida? Também.

É bom correr?

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Escrito por

♦ Brasiliense com sangue do Pará, amante de moda, culinária, cinema e música. Sonhava em ser bióloga marinha, mas vem se provando mais jornalista do que achava. Escreve menos do que sua mente produz, mas a memória deixa a desejar. Curiosa e repórter, então saiba que tudo o que disser poderá se tornar texto novo. E se a encontrar, prove seu abraço... dizem ser o melhor do mundo. ♦

3 comentários em “Uma jovem, um cobrador e um ônibus

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