Uma noite, um bar, um parque e uma dança

Ele chegou e logo me encarou, confesso que fiquei bem constrangida. Desviei o olhar umas três vezes e quando a curiosidade sobre ele continuar a me observar batia, eu fingia procurar por alguém passando os olhos rapidamente por onde ele estava.

Tinha uma pose meio esnobe e parecia enojado com algo, “um orgulhoso” logo pensei. Mas então sentou-se ao meu lado e conversou bastante com um amigo meu. “Não estava olhando a mim” me frustrei.

Passei a degustar de sua companhia, trocamos algumas poucas palavras e só. O silêncio não incomodou em momento algum, e isso não seria algo ruim. Penso que se a companhia é boa nem a falta de assunto deve ser pesado.

Foi então que de repente nossas mãos se tocaram.

Tinham ido ao encontro do mesmo copo vazio prestes a ser usado. “Desculpe” ele disse colocando água para mim. “Imagina, pode beber” falei envergonhada, um orgulhoso não agiria com tanta educação.

Ele insistiu para que eu ficasse com o copo e segurou minha mão para que eu o pegasse. E aquele toque fez com que meu coração pulsasse mais forte. “O que está acontecendo comigo? ” Não havia desculpas para negar-lhe a gentileza e estava nervosa por não querer largar nunca mais aquela mão. Então assenti com a cabeça e bebi aquela água fresca. A este ponto estava mesmo precisando tomar uma água.

Então ele se foi.

Levantou da mesa tão rapidamente quando um encostar de cílios, quanto as asas do beija flor que tão rapidamente batem a ponto de você vem perceber.

Se levantou e saiu no escuro da noite. Se perdeu na escuridão.

Se foi.

Sem me dizer adeus, sem se despedir com um aperto de mãos.

Mãos…

Ah! Aquelas mãos…

Decidi partir também. Sem aquelas mãos encontrando as minhas por simples acaso, a noite passou a ser nublada e a escuridão se transformou em dois imensos braços nos quais gostaria de me jogar.

Caminhei solitariamente por dez minutos, foi o tempo suficiente para que uma antiga ferida se abrisse e as lágrimas nascessem nos meus olhos. Esse choro me acompanhou até que eu passasse da segunda quadra após o lugar em que estava e foi onde uma mão segurou a minha me fazendo parar.

“Alguém vai me matar e é hoje” me virei rapidamente tentando não ser rude já pensando o pior.

Mas era ele. Sem fôlego por aparentemente ter corrido.

– Tive que atender ao telefone e quando voltei não te encontrei. Aquele seu amigo disse que tinha ido embora.

– Por que veio atrás de mim?

– Fiquei com medo de não poder te ver nunca mais, ou de não poder esbarrar na sua mão novamente. Desculpa se te assustei.

Sua voz ainda era coberta de euforia e cansaço. Sua veia pulava no meio da testa e mesmo que o tempo estivesse frio, pude notar que sua testa brilhava com pouco suor.

– Desculpa, eu sei que nem nos conhecemos direito…

– Não precisa pedir desculpas. – Falei interrompendo-o.

Nossas mãos ainda estavam unidas, agarradas.

– Tenho a sensação de que já nos conhecemos.

“É, eu também. ” Pensei.

Nos encaramos por algum tempo, foi quando recuperou o fôlego e já nem tinha sinal de cansaço por ter corrido.

– Olhando pra você tenho uma vontade tão grande de te tirar para dançar!

– Dançar? – Me assustei… como assim dançar?

– Desde o momento em que te olhei me veio essa sensação, como se a música nos deixasse num mesmo plano mental ou qualquer coisa nesse sentido.

Não consegui disfarçar um sorriso.

– Não ria, apenas me acompanhe.

Ele me puxou ao parque que estava ali perto, desses entre as quadras, pegou um fone de ouvido e me deu um lado, depois colocou o outro no seu ouvido. Escolheu uma música e me olhou.

– É exatamente esse tipo de música que me veio à mente ao te olhar. Posso?

Perguntou estendendo a mão.

Segurei sua mão como uma resposta positiva. Dançamos alí até o final da música.

– Hoje vou pedir aos céus que esse dia se repita.

– Se quer que esse dia aconteça novamente é só não sumir como todos fazem.

Ele deve ter sentido uma mágoa na minha voz.

– Nem te conheço e já não quero ficar longe de você, não sei o que te feriu, mas te ver assim dói em mim. Não estou apaixonado e nem vou te iludir, posso te prometer que serei sincero e nada mais.

– Já é alguma coisa.

– Vamos combinar assim, você fica com meu telefone. Me liga quando quiser e daremos um jeito para que essa noite se repita. Exceto a parte em que você some e me faz correr. Assim você não precisa se preocupar se eu sou um louco assassino ou sei lá o que. Vou te deixar livre, mas esperarei eternamente sua ligação.

Ao chegar em casa não sabia se ligaria. Guardei o papel com o número anotado em cima da geladeira. Assim, sem salvá-lo no meu celular, não correria o risco de ligar e parecer uma desesperada. E então esperei.

Não posso controlar o tempo, mas posso me controlar a não começar algo sem terminar outra coisa antes.

tumblr_lt7f2mSquG1qahqyoo1_500

Anúncios

Escrito por

♦ Brasiliense com sangue do Pará, amante de moda, culinária, cinema e música. Sonhava em ser bióloga marinha, mas vem se provando mais jornalista do que achava. Escreve menos do que sua mente produz, mas a memória deixa a desejar. Curiosa e repórter, então saiba que tudo o que disser poderá se tornar texto novo. E se a encontrar, prove seu abraço... dizem ser o melhor do mundo. ♦

3 comentários em “Uma noite, um bar, um parque e uma dança

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s