Um carinho, um amigo e algo mais.

A percepção das coisas mais repentinas já fazia parte do jeito dele de ser, quando se tratava dela então… Era fácil como naquele ditado popular sobre roubar doces de criança -embora eu ache isso absurdamente difícil- mesmo que ela tentasse disfarçar ele sabia que havia algo errado.

Ela enviou um recado deixando-o preocupado, mesmo que não tivessem ligação alguma. “Me perdoe por isso, mas preciso muito da sua ajuda”
O que teria acontecido? Ela pedira perdão de uma forma fria e jamais pediu sua ajuda com tanta urgência antes. Era normal que conversassem de forma pura e sincera, como dois irmãos, assuntos muitas vezes constrangedores e secretos, aqueles escondidos no porão da alma. Tinham essa facilidade e parceria.

Ela disse que perdera o controle sobre si e tinha medo que algo pior fosse acontecer e, por isso, precisava da ajuda de um amigo já que não poderia explicar toda aquela situação para algum parente porque tinham grande dificuldade em aceitar alguns comportamentos e algumas decisões das quais ela havia tomado naquele momento.

Era tão normal a ouvir falar sobre os tantos finais felizes que sonhara, com os momentos mais romanticamente belos e seus relacionamentos que sempre se iniciavam do jeito que esperava, porém sempre terminavam de formas cruéis, partindo o seu coração. Ela não conseguia entender porque os finais felizes não saltavam dos seus livros favoritos para a vida real enquanto ele, manso, sempre lhe pedia para ir com calma.

“Seria terrível se ela sofresse sozinha” pensava enchendo-se de medo e preocupação. Ele pegou as chaves e correu até seu carro. Tentou não gritar com o trânsito lento e parado, tentou também não ligar muito pra chuva forte e nem para o sol que brigava com seus olhos cegando-o. “Sol e chuva? Que contradição…” Conferia o relógio sempre que a imaginava tentando fazer algo a si mesma, e para esquecer a cena que criava na mente, acelerava, buzinava, gritava, socava o volante…

Ela já não tinha controle sobre seus movimentos e suas unhas, afiadas demais, desenhavam riscos nos seus antebraços, alguns desenhos fortes o bastante para fazerem nascer gotas vermelhas. O choro descontrolado saia tão fácil quanto sua respiração, que por sinal já não era mais a mesma. Lembrava de uma frase que leu um tempo atrás “A dor precisa ser sentida”.

“Precisa o caralho!” Pensava. Não queria sentir aquilo nunca mais, se sentir usada, jogada de lado, sem importância, sem valor, enganada. Sentia que havia sido sincera com alguém que nunca mereceu nenhum sorriso roubado. Era como se tivesse aberto o peito a algo tão esperado, aquilo pelo qual sempre lutou para viver, e acabou ganhando facadas nesse peito fazendo jorrar sangue para todos os lados. E seu sangue já estava começando a pingar.

Por mais que ainda estivesse raciocinando, seu corpo não parava de se ferir. Suas mãos, trêmulas, estavam perdendo as forças quando ele chegou. A mãe dela estava sentada na poltrona gigante que elas tinham na sala, quando a viu passar correndo se assustou. Sentiu um soco na garganta, o ar ficou rarefeito e lágrimas brotaram.

– Para onde você vai?

– Mãe, por favor, me deixe ir. Não me impeça, eu preciso sair daqui agora ou vou pirar.

A mãe, com o coração partido, a deixou ir. Avistou de longe aquele rapaz que tanto gostava abrir a porta para sua filha entrar. Sentia que eram muito próximos, mas nunca havia entendido essa amizade tão forte. A chuva ficara leve e ficou esperando o carro se distanciar aos poucos, as luzes do farol foram diminuindo até que apenas as gotas de chuva fossem cobrindo esta imagem.

Ele olhava para ela a cada três segundos. Ela tentava esconder as lágrimas ainda sem saber o que fazer ou como se comportar ali sem a menor ideia de para onde estariam indo, com frio e com medo de parecer a maior idiota do mundo.

Foram a uma livraria, ele sabia como fazer ela se distrair… e ela tentou usar o que ainda tinha de racional para se obrigar a não pensar mais no que estava lhe ferindo. Ele fazia caretas segurando livros dos quais ela sempre falava com tanta graciosidade e ânimo, como se fossem bolos de chocolate com cobertura e ganache… ela, se revoltando, iniciava uma discussão sobre como aqueles livros eram ótimos e porque ele precisava ler.

Foram à casa de um outro amigo e compraram uma pizza. Sentados a mesa ela se calou, a história havia retornado a sua mente. Todas as palavras que ouvia associava ao causador do sofrimento e não conseguia esconder as lágrimas. Seus amigos, então, se convenceram a ouvir sobre.

Com olhares trocados, comentários silenciosos, após lerem as várias mensagens que ela os mostrou, chegaram a mesma conclusão e como ela não queria acreditar que estava certa sobre ter se iludido tão fortemente, engoliu o choro e fechou a cara. Havia deixado a raiva invadir sua mente e coração, agora não queria mais saber dele.

O caminho de volta havia se tornado leve, os desenhos feitos pelas unhas dela já haviam secado, o rosto estava enxuto, porém inchado, e para não ser uma companhia tão desagradável ela deixava alguns risos saírem ilesos. Ainda guardava rancor, mas já não sofria como uma criança desamparada, pois sabia que precisava ser uma mulher com a cabeça erguida.

Ao chegar a sua casa deu um abraço forte no seu anjo da guarda, um beijo na bochecha e um agradecimento. Mas aquele seria apenas o início de algo ainda inexplicável.

Muitas pessoas acham que esse tipo de carinho e amor não machuca ou não cura feridas. Muitos julgam estes sentimentos como “de mulherzinha” quando não são nada disso, um termo pejorativo não denigre um sentimento e muito menos uma mulher. Qualquer um está sujeito a sofrer da mesma forma que está sujeito a ser feliz, são os riscos da vida, são as escolhas que fazemos. As consequências sempre virão, resta esperar o tempo para saber se foi uma boa ou uma má decisão.

Eles têm um laço firmado com este dia, estarão ligados sempre por uma pequena ajuda, um ombro e um conselho numa hora importante. Uma presença que se fazia tão necessária quanto uma vida a ser salva. Hoje existe uma gratidão, uma parceria, uma amizade que se tornou sólida, um companheirismo e um amor mútuo, lindo e forte. Algo que nem o tempo poderá desfazer.

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Escrito por

♦ Brasiliense com sangue do Pará, amante de moda, culinária, cinema e música. Sonhava em ser bióloga marinha, mas vem se provando mais jornalista do que achava. Escreve menos do que sua mente produz, mas a memória deixa a desejar. Curiosa e repórter, então saiba que tudo o que disser poderá se tornar texto novo. E se a encontrar, prove seu abraço... dizem ser o melhor do mundo. ♦

2 comentários em “Um carinho, um amigo e algo mais.

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