Um erro, uma mãe, uma perda

Ela caminhava cheia de tristeza, confusa com o caminho que sua vida havia seguido. Sua barriga já estava enorme e as contrações a faziam agonizar. Estava sozinha e com tanto medo… não sabia se talvez fosse hora de pedir ajuda, mesmo que a vergonha ainda fosse maior. Quando chegou a hora os gritos já eram inevitáveis a ponto de seus vizinhos baterem a sua porta com raiva “Cala-te desgraça!” “Aguenta calada, ninguém mandou ser essa prostituta barata” “Se vendeu, arque com as consequências”.

Guardara sua dor no bolso da alma e levantou a cabeça meditando “Tudo posso se acredito”. Passou pela porta do seu quarto-sala, pegou um ônibus e se encaminhou para o hospital. Sua bolsa já havia estourado e os gritos reiniciaram, porém em forma de gemidos. Numa escala de dez conseguira chamar de sete sua maior dor, já havia aprendido a suportar dores. Sua última lembrança eram as luzes do corredor que ligava a recepção à sala de cirurgia.

Seus olhos se fecharam e a dor estava no seu ápice; suava frio, tremia, suas pernas davam câimbras, suas mãos se fechavam e abriam descontroladamente e seu coração passou a disparar. Os médicos fizeram o seu milagre de manter as duas vidas ali na sala, uma linda menina chorava desde o momento da sua primeira respiração e só se calou quando a mãe a envolveu, mesmo dopada e sem força. Uma garotinha que seria facilmente apelidada de Branca de Neve sorria para todos com a imensidão do amor desconhecida pela ciência.

Ao chegar ao seu quarto a mãe quis eternizar aquele momento e ficar ali onde era protegida. Tinha a certeza de que ninguém entraria no hospital para lhe fazer mal apenas por apreço, e isso já era suficiente para que ela quisesse viver naquele lugar. Recebia alimento na hora em que se deve comer, recebia atenção de todos os enfermeiros como se fosse parte de uma família e recebia um carinho tão gigante daquela criança ainda sem nome que não poderia descrever, mesmo que não quisesse cuidar dela porque não era essa a intenção.

Cinco dias depois ela e a criança receberam alta e então toda a paz que veio do sofrimento havia sumido e este retornara a amedrontar sua mente. Ideias como fugir e recomeçar sua vida nasciam tão rapidamente quanto deixavam de existir… “ele me encontraria até no inferno”

Envolveu a criança e se dirigiu a recepção do hospital.

– Moça, saberia me dizer se alguém quer uma criança? – Perguntou sem conseguir olhar para os olhos daquela mulher de meia idade.

A mulher, então, se assustou. Encarou aquela jovem e vendo tanta beleza em seus traços não entendia o porquê dela querer entregar sua filha para outra pessoa.

– Você tem certeza disso? Já conversou com o pai da criança? Com seus familiares?

– Essa criança não pode voltar comigo hoje e nem nunca… nós não temos família.

A mulher se assustou e tentou achar motivos em sua mente para explicar aquela situação. Foi quando encaminhou a jovem mãe para uma sala reservada. Seu lado humano acabara de ser extinto.

– Você precisa de dinheiro, não é? Eu posso comprar essa criança de você e estou oferecendo o dinheiro para que fique calada! Isso não pode nunca sair dessa sala. Você me entrega a criança e nunca mais saberá notícias dela, não a verá, não terá acesso nenhum a ela futuramente. É um caminho sem volta. Quanto você quer?

A jovem se calou e olhou para a criança que dormia nos seus braços. Sentia seu peito apertar e um sentimento de traição a envolveu. Mas sabia o que aconteceria se a criança fosse para casa com ela e isso sim era traição.

– Quero vinte e sete mil reais.

A mulher saiu da sala com o celular em mãos. Cinco minutos depois retornou com o rosto sério.

– Esteja nesse local às 10 horas em ponto.

A jovem mãe pegou um papel pequeno que a mulher lhe dera e saiu do hospital. Caminhou por meia hora até o local e sentou num banco cinza que ali estava. Poucos minutos depois a mulher desceu de um carro na pista de cima e foi andando em direção a jovem segurando uma mochila amarela.

Se aproximou, abriu a mochila de uma forma discreta e contou a vista da jovem os vinte e sete bolos de mil reais. A entregou a mochila e esperou. A jovem então lhe entregou a criança e ficou parada vendo a mulher se distanciar dela. Uma parte acabava de morrer, outra estava partindo, mas nenhuma dor superou aquela a qual conseguira se livrar. Por mais que tenha optado por escolhas erradas, sabia até quando seguir esperando e quando deveria fazer algo. Não se orgulhava, mas àquela altura do campeonato ela já tinha entendido que as vezes você escolhe e as vezes você é escolhido. E lutou para escolher nunca mais voltar para aquele quarto-sala.

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Escrito por

♦ Brasiliense com sangue do Pará, amante de moda, culinária, cinema e música. Sonhava em ser bióloga marinha, mas vem se provando mais jornalista do que achava. Escreve menos do que sua mente produz, mas a memória deixa a desejar. Curiosa e repórter, então saiba que tudo o que disser poderá se tornar texto novo. E se a encontrar, prove seu abraço... dizem ser o melhor do mundo. ♦

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