As palavras no cais da memória

Quando a loucura já não me é um cais da constante alegria permito que a dor do pouso leve se entregue ao porto do desespero. Já não é possível esconder as tantas marcas dos erros que cometi e meu casco já se arranhou muito, temo que afunde, que eu naufrague. Não é digno ao mar receber corpo tão impuro como também não é digno que a terra receba meus passos. Sou um amante foragido, um erro cometido desde o nascimento, mas sou um mero arrependido que fora abandonado. O ser mais confuso que já tentou pensar.

Minha amada me fez esperar por suas certezas e a perdi para o tempo, meu maior inimigo desde sempre. A esta deixo meu coração, que já não pulsa mais, que já não bate por ela, que já deixou de ser útil. Minhas lágrimas já secaram nesta terra que agora me devora e minha pele já se desfaz entre estas paredes de madeira que não me mereciam, eu não as mereci e elas não deveriam carregar corpo tão subalterno.

Sujo na lama da vergonha me despeço desta vida de misérias que tanto me foi contraditória. Ora fui feliz, ora fui cuspido. Fui de carrasco a nada. De amante a empregado. E de ser humano a marciano, mas um alien burro, um estúpido, um dependente desta droga de vida. E confesso-me um mendigo, um dependente deste corpo tão envolvente que minha amada possui. Um corpo que me seduziu ao máximo nesta tão complexa arte sexual da sedução, esta arma a qual nunca pude tocar, provar ou usar… fui enganado com belas palavras.

As belas palavras sempre me fizeram sonhar com a possível vitória dos fracos, porque aos mais desprezados dos homens foi dado a sabedoria das pequenas coisas; a mim, outrora, foi dado o dom de apreciar todas as palavras mais belas, as melodias que elas produzem. Fui o maior degustador dos sons das palavras e da variação que elas possuem nesta língua que de tão desprezada, se comparada às estrangeiras, não cresce como deveria. Me vendi as palavras que minha amante usou contra mim.

Então decidi retornar ao meu velho amigo porto. Este porto que me permitiu usar as palavras e respondia as minhas loucuras com suas melodiosas ondas, seus sons conversavam com as minhas palavras e quando não conseguíamos nos calar o vinho fazia papel de juiz me forçando a crer que meu silêncio muitas vezes fora o mais importante. Este porto, cálido porto… ao passo que a vida já saia de meu corpo, se tornou minha alma… minha amada… meu traidor!

O cais do porto se tornou meu leito de morte, eu estava à deriva, o mar me puxava, me seduzia, era minha amante. O vinho já não era mais tão justo e as palavras, tão belas me sugaram as forças. Permiti que meus olhos se fechassem e o coração, que tantas vezes disparou, de repente se calou. Era possível ouvir baixinho as ondas tentando me tocar, me reanimar, me reviver… mas eu não quis me enganar com suas palavras. Me despedi com um suspiro e deixei o mundo como se nunca tivesse existido.

Um corpo ao léu foi entregue aos vermes.

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Escrito por

♦ Brasiliense com sangue do Pará, amante de moda, culinária, cinema e música. Sonhava em ser bióloga marinha, mas vem se provando mais jornalista do que achava. Escreve menos do que sua mente produz, mas a memória deixa a desejar. Curiosa e repórter, então saiba que tudo o que disser poderá se tornar texto novo. E se a encontrar, prove seu abraço... dizem ser o melhor do mundo. ♦

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