Discurso: Parabéns, amor!

Me lembro de ter sentado ao lado dele. Naquele momento eu me recordava de tanta coisa… de como terminou uma vez. Aquele adeus que doeu como um soco na boca do estômago, soco este que matou todas as borboletas que voavam tão facilmente ao olhá-lo.

As horas correram desde aquele último adeus e de repente o destino nos fez estar lado a lado. Sem saber como conversar e sobre o que falar. Existia um sentimento estranho nos separando, não sei se medo seria uma boa palavra. Porque poderia não existir a reciprocidade, mas havia algo!

“Ele sorriu para mim”. Como idiota que sou pensei ser para mim, por um momento. Mas no mesmo instante lembrei das coisas horríveis que disse a ele e como aquilo tornaria um sorriso não ser dirigido nunca mais a mim. Especialmente para mim! Diretamente para mim.

E antes que algum conhecido se aproximasse de nós eu levantei. Fui me servir de algo forte e cheio de álcool porque era algo que jamais faria se estivesse bem e ele perceberia. Então falaria comigo. Ou não… ele não deveria se preocupar com mais uma louca bêbada numa festa qualquer.

Avistei uma mulher linda sentar ao lado dele. Foi inevitável segurar a lágrima e uma fuga não planejada da realidade passou a ser meu propósito. O álcool entrava fácil pela minha boca que já não sabia mais o gosto daquele líquido amarelado. Aquela mulher de corpo perfeito agora passava a mão pela perna dele com segundas intenções e meu sangue fervendo entrou em combustão.

Enchi mais um copo e fui andando disfarçadamente para trás do sofá onde eles estavam. Esperei que as pessoas que estavam em pé dançando se virassem, com aqueles passos de dança mais rápidos devido à música agitada que se iniciou, fingi um tropeço e derramei aquele líquido vermelho no lindo vestido azul celeste que aquela piranha usava.

Deixei que o álcool fosse o culpado me deixando levar num desmaio falso no momento em que ele levantou para ajudá-la. Pensando bem, se ele não ligava mais para mim que sentido faria me ajudar? Aquela mulher precisava de mais atenção que eu… provavelmente ele iria ajudá-la a tirar o vestido e procuraria alguma camiseta velha do anfitrião, aquele gordo alto como uma geladeira. Camiseta essa que naquela anã serviria de roupão!

Ao cair e no instante em que esses pensamentos terminaram eu não consegui mais ver nada. Abri meus olhos e estava no chão do banheiro que ficava escondido na área externa da casa. Alguns flashes que chegavam me permitiam ver as pernas de um homem. Com uma calça bordô e um sapato estranho. Sua voz grave perguntava se eu estava bem, mas sempre que tentava olhar para ele eu vomitava sem perceber.

Foi quando apaguei pela segunda vez. Dessa vez acordei numa cama que não soube identificar de quem era. A música estava tão distante que não era nem possível identificar qual era. Percebi que estava vestindo uma roupa seca e limpa. Um moletom. Ainda meio tonta sentei com dificuldade e a porta se abriu.

Um rapaz alto, com um cabelo e óculos estranhos, a calça bordô, o sapato estranho e um colete preto entrou com um copo na mão.

– Tome. Vai se sentir melhor. – ele disse se sentando no outro extremo da cama.

– Quem é você? E onde é que eu to? O que aconteceu? O que é isso que me deu pra tomar?

– Muitas perguntas. – ele disse subindo seus óculos com o indicador esquerdo.

O encarei por um minuto assistindo ele mudar seu jeito meio perdido para um jeito mais respeitador e seguro de si.

– Me chame de Nando, você está no quarto da minha irmã. Você ficou tão bêbada que desmaiou no meio da festa. Tentei te ajudar com o banho porque é o que me ajuda a melhorar, mas estava tão mal que fiquei com medo e te trouxe para cá. Isso aí é um remédio que vai te ajudar a ficar melhor. Pode confiar.

– Quem me trocou? Foi você?

– Olha, um muito obrigado seria bom. Fique tranquila, minha irmã foi quem te vestiu. Eu só te coloquei aqui na cama dela e ela fez o serviço.

Onde estaria aquela piranha e meu ex? Eu já não fazia mais ideia. E para ser sincera, fiquei com tanta vergonha do grande espetáculo que fiz que não me permitia o ciúmes descontrolado. Por que ele não me ajudou? Por que esse tal de Nando foi quem me ajudou? Não era esse o plano!

– Obrigada, Nando. – disse tomando o remédio em seguida.

– Por nada.

– Seus pais me viram?

– Não, eles não estão em casa. Viajaram e só voltam daqui duas semanas. E antes que pergunte, minha irmã saiu com o namorado. Provavelmente só volta um dia antes dos meus pais. – ele falou arrumando os óculos, levantando a sobrancelha direita e engolindo de um jeito estranho a cada frase, nessa ordem.

Foi inevitável que eu soltasse um sorriso.

Passei a noite no quarto da irmã dele e ao amanhecer ele me preparou um café da manhã. Foi quando percebi seus olhos. Meio cansados e ainda assim arregalados, porém instigantes o suficiente para me paralisar. Ele tinha um jeito engraçado e um ótimo humor. Conversamos sobre literatura, artes, física e arquitetura. E sem perceber fui ficando, ficando, ficando… e já se passaram setenta anos.

Meu Nando está, hoje, completando seus oitenta e nove anos. E eu só posso dizer a ele que cada sorriso roubado ou mesmo forçado, que cada fagulha de raiva transformada em risadas escandalosas, que cada abraço apertado, cada beijo e cada carinho me fez perceber como existem coisas mais importantes que uma mera vingancinha do passado.

Cada dia ao teu lado, Nando, é como uma nova rima. E juntos vamos compondo esse nosso cordel. Não sei se ainda poderemos viver mais setenta anos juntos, mas se pudesse viveria feliz. Obrigada por ter sido tão gentil comigo naquela noite e por ter me feito te encarar, porque estes teus olhos me alegram todos os dias. E mesmo que a velhice seja inevitável, envelhecer ao teu lado foi a minha melhor escolha já feita. Eu te amo, meu velho. Parabéns, amor da minha vida!

Anúncios

Escrito por

♦ Brasiliense com sangue do Pará, amante de moda, culinária, cinema e música. Sonhava em ser bióloga marinha, mas vem se provando mais jornalista do que achava. Escreve menos do que sua mente produz, mas a memória deixa a desejar. Curiosa e repórter, então saiba que tudo o que disser poderá se tornar texto novo. E se a encontrar, prove seu abraço... dizem ser o melhor do mundo. ♦

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s