George & Meg

Ela pediu um café desses cheios de frescuras e sentou numa mesa perto da janela com um livro aparentemente velho, amarelado. Colocou seus óculos e devorou algumas páginas antes que o café chegasse. Comeu de uma forma delicada, bebeu como uma donzela de séculos atrás faria e foi engraçado vê-la daquela forma. Seus cabelos, cheios de cachos, sua pele tão escura que me lembrava o céu da madrugada, o que mais amo.

Seu sorriso brilhava junto com seus olhos e me confortavam de uma forma inesperada. Eu mal a conhecia, mas já não queria deixar de vê-la. Logo fechou o livro e pude ler o título: O morro dos ventos uivantes. Eu já podia me sentir na pele de Heathcliff só de imaginar que talvez ela já tivesse encontrado seu amado em outro que não eu e apenas isto já me fazia sentir o sabor de vingança ao qual eu era tão viciado.

Mas tentei de todas as formas não permitir que a estória fosse realizada e tentei me encorajar. Ao me levantar ela voltou a ler e me vi um covarde, o máximo que ela poderia fazer era me ignorar e ir embora, mas isso já me apertava o peito. “Não vá embora” era meu pedido. “Coragem, George, você precisa tentar” era meu mantra.

Sentei-me a sua frente. Ela levantou o rosto rapidamente num susto, me encarou até que eu deixei as palavras saírem de forma calma, ou pelo menos era a intenção.

– Desculpe-me. Me deixei envolver pelo seu jeito e pelo livro que está lendo. É um dos meus preferidos!

Ela então abriu a bolsa e procurou por algo com uma certa desconfiança sempre tentando me olhar de alguma forma entre os cachos que lhe tampavam os olhos.

– Está tudo bem? Se quiser posso ir embora.

Ela puxou um bloco de anotações em branco e uma caneta de ponta fina preta.

“Você fala libras?”

Por um momento me entristeci, porque a alguns minutos estava a imaginar o som da sua voz. Mas ao mesmo tempo me alegrei por ela não ter fugido. Fiz que não com a cabeça.

“Tudo bem. Se importa em escrever?”

Peguei o bloco dela e respondi que não.

“Me chamo George, estava te olhando dalí por causa do livro. É um dos meus preferidos.”

Os olhos dela brilharam, mas a conversa não pôde durar muito porque o bloco de notas dela acabou. Na última folha anotei meu telefone e nos despedimos.

Quando saí da lanchonete fui pesquisar sobre cursos de libras, não podia depender de comunicação escrita para me comunicar com ela.

No fim da semana recebi uma mensagem.

“Oi George, é a Meg! Não vou trabalhar no fim de semana e pensei em continuarmos nossa conversa. Mas não se preocupe, comprei um caderninho!” terminou a mensagem com um emoticon sorrido. Ainda não consigo me acostumar com a tecnologia e seus exageros.

Marcamos de nos encontrar num restaurante que ficava no centro da cidade. Estava vestido com um terno e uma gravata preta. Havia comprado um buquê pequeno de tulipas e a esperava na porta. Ao vê-la pude notar que estava apenas com o caderninho e duas canetas em mãos. Caminhou até mim com um grande sorriso no rosto desde que avistou as tulipas.

Entreguei-a o buquê e com as mãos disse “Você está linda!”

Uma gota de felicidade escorreu pelo olho dela. Algo me dizia que não seria a última vez.

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Escrito por

♦ Brasiliense com sangue do Pará, amante de moda, culinária, cinema e música. Sonhava em ser bióloga marinha, mas vem se provando mais jornalista do que achava. Escreve menos do que sua mente produz, mas a memória deixa a desejar. Curiosa e repórter, então saiba que tudo o que disser poderá se tornar texto novo. E se a encontrar, prove seu abraço... dizem ser o melhor do mundo. ♦

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