A valsa, o vento e os olhos de noite estrelada

O vento me tirou para dançar e o vestido feito de amor voava sem parar. Dançávamos uma valsa, dançávamos Plangente… como se a própria Chiquinha Gonzaga tocasse para nós dois. Os passos eram intercalados entre longos e curtos, o vestido rodava e sua mão ainda na minha cintura me deixava seguramente próxima a seu corpo. Esse mesmo vento me proporcionou sorrisos bobos e apaixonados. Eu estava a pensar no meu amado…

Quando o vento se despediu, corri a um banheiro e me penteei. Os fios de cabelo haviam saído de seu devido lugar. O batom vermelho estava desbotado e o retoquei também. Saí dali e me encaminhava à casa dele, que me recebeu com o sorriso largo e cativante. Segurou minha mão e beijando-a me puxou a uma dança, agora exclusivamente nossa e dessa vez já não era imaginação.

Foi quando o vento me reencontrou, sorrindo. Ah! Quem dera se aquele momento de felicidade pudesse durar o resto de nossas vidas! Meu amado estava a me seduzir com seus olhos grandes e negros e suas mãos me segurando firme e tão próxima… era possível sentir sua respiração forte perto do meu pescoço.

Nesse instante meu amado ousou falar.

– Adoro seu perfume.

Encarei-o por um breve instante. Nosso espaço agora estava recheado de palavras, pensamentos, intenções. Não! Na nossa dança mágica ninguém pode se meter, muito menos minha insegurança!

– Gostaria de lhe pedir algo.

Ele disse fazendo o vento largar meu vestido de amor e puxando meu queixo rebaixado de orgulho e vergonha.

– Case comigo!

Pelas minhas pernas subiram arrepios de desespero que fluíram tão de repente quanto um espirro. Um susto, um surto, uma insegurança. Sem aviso prévio. Sem passos calculados. Mas o que estava pensando ele? Não poderia aceitar.

– Pelo amor de Deus, Maria, diga algo!

– Sabe o vento? Ele passou por mim hoje e perguntou porque eu sorria. De fato, o calor está terrível, mas mesmo com tanta coisa dando errado e muitas outras se encaminhando ao destino certo eu ainda me pego despejando felicidade.

– Felicidade?

– Exato… o amor é isso, não é mesmo? Estar feliz sem motivo. Ou melhor, esse motivo é a pessoa amada. O que seria da minha felicidade sem você? Com certeza seria um café frio, um bolo queimado, oh céus! Uma chuva na praia! Que horror… Você é o sol que aquece na medida certa para que eu não derreta, você é a cobertura de chocolate quente no sorvete de creme, melhor… você é o chantili do meu frapuccino! Você é o motivo do meu riso mesmo nos dias mais turbulentos. Mas essa é a graça, o segredo talvez. Ter amor por você não é um presente seu apenas, mas meu também. Porque a felicidade faz bem a mim igualmente. Amor por você é o que tenho de melhor dentro de mim e como é bom dizer-te que todo o amor do mundo que tenho vivo em mim é seu. Plenamente. Ardentemente.

– Isso é um sim?

O medo retornou. Talvez devesse chama-lo covardia. Por que negaria à felicidade o meu direito de tê-la?

– Tenho medo de dizer sim.

– Mas se me amas, por que o medo?

Ele entristeceu-se e passou a encarar o chão. Seus olhos de noite estrelada já não brilhavam e seu sorriso estava desbotado.

– Porque até mesmo a maior felicidade está fadada ao terror.

Ele ergueu os olhos, puxou minhas mãos com carinho e as beijou me olhando e disse:

– Posso não te prometer felicidade, posso ser um péssimo homem, posso ser um pai terrível, mas eu te garanto que vou acordar todos os dias desejando ser o melhor para você porque a felicidade pode não ser eterna, mas quando a buscamos, quando damos duro para merecê-la ela vem não apenas com o sabor de vitória, mas com a graça da satisfação que recompensa o esforço.

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Escrito por

Estudante de Jornalismo e brasiliense. Apaixonada por cinema, literatura, música, culinária e beleza. Com família paraense, das raízes indígenas, se criou em Brasília onde pode descobrir mais sobre o mundo e se apaixonou pela profissão que escolheu. Criou o Diário em 2014, quando decidiu manter vivas as poesias que mantinha em cadernos por anos.

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