Versonik, parte I

O ar tinha sabor de hortelã e era preenchido por diversas cores como se eu estivesse andando dentro de um arco íris. As nuvens eram circulares e felpudas, as árvores eram violetas e amarelas com um aspecto futurístico e com alfaces pretas na raiz. As flores eram muito distintas, as pétalas ficavam na terra e subiam-se os caules com alguns pelos curtos formando vários M’s.

Avistei algum ser vivo que me lembrava um lobo guará, mas suas patas eram estranhamente bizarras… eram como troncos de árvores das quais me recordo de ver no quintal dos meus avós, talvez pelas veias estufadas que se movimentavam conforme ele se mexia e na sua cabeça as orelhas que subiam cerca de vinte centímetros e depois caiam até o chão sobrando ainda dois palmos.

Os olhos dele eram enormes, redondos caricatos e de cor similar ao mar caribenho. Os pássaros que voavam tão perto da minha cabeça tinham formas de peixes pequenos, com suas cores seguindo um padrão de azul claro com riscos verdes florescentes e amarelo com riscos vermelhos. Aquele mundo era muito diferente, porém intrigante.

Andei por aquele lugar que me pareceu ser uma floresta até encontrar uma nascente onde a água tinha cor de sangue e sabor de chantili, mas matava a sede. Quando minha mão terminou de fazer o caminho água – boca a vi brilhar como se estivesse cheia de glitter. Aquele brilho subia pelo meu braço e senti que ia em direção ao meu corpo por completo. Me inclinei para tentar ver meu reflexo na água e percebi que meu rosto já não era como me lembrava.

Meu nariz era minúsculo, minhas orelhas estavam pontudas e curtas, meus olhos agora estavam muito maiores e redondos com cor de vinho, meus dentes pareciam com os de um tubarão, porém pequenos. Meu rosto estava pontudo e minha boca estava um pouco maior, mais carnuda. Percebi que minha cor já havia mudado. Minhas mãos tinham um degrade de purpurina até que acabavam na altura do meu cotovelo. Eu tinha braços brancos e os ombros iam de um tom azul muito claro até meu tronco que mudava para um azul marinho e grafite.

Meus cabelos estavam enormes, platinados, com uma franjinha que cobria até minhas sobrancelhas que estavam grossas e num tom de rosa chiclete. Tentei não me assustar e nem gritar porque não sabia se alguma criatura perigosa estaria me vigiando. Me levantei tentando não cair ao perceber que estava de salto. Me equilibrando continuei andando pelo lugar em que estava até avistar uma construção que me lembrava uma cabana indígena, se não fosse pela fumaça colorida que saia do telhado.

Bati na porta e um ser, que tinha o físico muito parecido com o meu tirando que o cabelo era curto e verde e por uma barba da mesma cor. Ele resmungou algo que não entendi, deixou a porta aberta para que eu entrasse e puxou um vasilhame grande em forma de canoa. Nele tinha algumas castanhas com frutas similares a amora, cereja e morango.

– O que você pensa que está fazendo aqui? – ele me perguntou em meio a um sussurro.

– Não sei nem como vim parar aqui. Quem é você? – sussurrei de volta enquanto me sentava.

– De onde você veio sou conhecido pelo nome de Augusto, aqui sou chamado por Manherde.

Ele respondeu puxando um tronco para perto de mim onde se sentou.

– O que é esse lugar?

– Você está em fase de transformação. E esse lugar é onde você deverá ficar pelos próximos sessenta dias.

– Formação? – quase gritei.

Ele puxou meu braço e senti um choque forte que me deixou tonta.

– Você precisa se acalmar, nós estamos tentando descobrir um meio de revidar esse vírus que muda nossa forma de ver o mundo em que vivemos. Aos poucos as suas lembranças de casa vão sumir, não lembrará de detalhes do que já viveu. O vírus corrompe nosso cérebro e temos que lutar contra essa mudança tão repentina. Você provavelmente estava em um hospital psiquiátrico e ao sentirem que essa possibilidade existia eles te injetaram esse vírus. Devem estar atrás de você agora, porque correu numa velocidade tão grande que eles te perderam do radar e enquanto corria sua mudança começava fisicamente. Eles não conseguem nos rastrear quando isso acontece.

– Que vírus é esse?

– A única coisa que sabemos é que ele é produzido através de uma droga. O que era para ser um efeito de alucinação se perdura, nós vemos coisas que não existem dessa forma, nem nós mesmos somos da forma como nos vemos. Mas o que eles não sabem é que com o tempo esse mesmo vírus nos evolui mentalmente.

– O que quer dizer com evoluir mentalmente?

– Cálculos, lógicas, fórmulas, teorias… nós aprendemos tudo com apenas uma lida rápida, nós conseguimos pensar cem vezes mais rápido quando chegamos a um certo ponto dessa transformação.

– Mas se são alucinações, que transformação é essa?

– Nem tudo são rosas, não é mesmo? As alucinações não param, continuamos a ver tudo da mesma forma, nosso cérebro continua evoluindo, mas após anos nós nos tornamos um ser vivo de quatro patas. Vi isso acontecer apenas a um de nós. Estamos tentando evitar que isso aconteça.

– Nós? A mais de nós?

– Lógico! Não achou que seria a única, né?

– Não. Quer dizer, talvez.

– Fique tranquila, daqui quinze sóis você conhecerá os outros. E aí então aprenderá tudo o que precisa. Mas enquanto isso, permaneça aqui, nunca fale mais alto que um sussurro, nunca pense alto, nada, nunca! Não tente lembrar de nada, eu sei que é difícil, mas isso traz dor física. E por favor, espere os quinze sóis.

– Ok.

– Enquanto esperamos os quinze sóis precisamos te dar um novo nome.

– Me lembro que me chamavam de algo com som de V.

– Veronica?

– Sim!

– Precisamos mudar… algo muito diferente, porém com um som parecido para que não se esqueça quem você é.

– Versonca.

– Pensei em Versonik.

 

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Escrito por

♦ Brasiliense com sangue do Pará, amante de moda, culinária, cinema e música. Sonhava em ser bióloga marinha, mas vem se provando mais jornalista do que achava. Escreve menos do que sua mente produz, mas a memória deixa a desejar. Curiosa e repórter, então saiba que tudo o que disser poderá se tornar texto novo. E se a encontrar, prove seu abraço... dizem ser o melhor do mundo. ♦

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