Diário de uma vítima

Querido diário,

Hoje eu acordei tão deprimida que quis me arrumar, pra me sentir melhor sabe? Minha autoestima anda muito pra baixo e eu precisava fazer algo por concordar que eu devo me sentir assim, que eu devo ficar bem comigo mesma antes de qualquer pessoa, porque eu sou importante.

Tomei um banho e passei até aqueles óleos que hidratam e deixam um cheiro bom na pele, o que seria ótimo já que só voltaria pra casa perto da meia noite por culpa da faculdade. Lavei os cabelos para me sentir limpa de todas as coisas que pesavam no meu corpo.

Coloquei um vestido na altura do joelho e calcei um salto médio, amo como meu corpo fica quando me visto assim. Fiz uma maquiagem leve no rosto e passei um dos meus perfumes favoritos, adoro sentir meu próprio perfume durante o dia. Me sinto mulher, me sinto confortável, me sinto linda e era tudo o que eu precisava hoje.

Antes de sair de casa peguei uma jaqueta com tecido mais grosso para aguentar o caminho de volta a noite. Saí às pressas porque já estava atrasada.

Ao passar pela portaria do meu prédio o porteiro soltou uma frase típica que toda mulher ouve “nossa ein”. Não liguei, não queria me importar com aquilo, não queria esquentar minha cabeça com essas besteiras.

Andei um pouco até onde tinha estacionado meu carro na noite anterior e um rapaz que aparentava ter seus dezessete anos, não mais que isso,  ousou piscar pra mim e sussurrou “ô lá em casa”. Eu respondi um “vai crescer primeiro, criança” e entrei no carro. Eu estava bem comigo, nada me abalaria. Eu ia enfrentar esse dia como todos os outros.

Cheguei ao trabalho recebendo elogios de algumas colegas, por saberem que estava sofrendo por alguns problemas. Fiquei feliz. Até a hora do almoço.

Um novato na empresa me pediu conselho para o almoço, indicação de restaurante. Fui bem atenciosa por lembrar como foi meu primeiro dia de trabalho e como tinha sofrido um pouco. Mas assim que terminei de falar com ele recebi um convite indiscreto para uma rapidinha como sobremesa.

Fiquei com nojo.

Mas ignorei.

Tentei trabalhar sem ligar muito para como ele tentava chamar minha atenção a cada trinta minutos. Até que deu a minha hora e fiz um amigo me acompanhar até meu carro. Ele me ouviu reclamar das coisas que aconteceram durante o dia e pediu desculpas em nome de todos aqueles homens.

Cheguei a faculdade quando já estava escuro, peguei a jaqueta e as apostilas e fui caminhando em direção à lanchonete. Passar o dia inteiro no trabalho evitando qualquer contato com aquele novato havia me impedido de sair para almoçar, por medo, então estava com muita fome.

Enquanto eu estava na fila esperando ser atendida e respondia alguma mensagem no celular tive a sensação de que alguém me olhava, mas achei que era coisa da minha cabeça. “Não é possível que seja mais um cara”.

Quando guardei meu celular na bolsa e peguei minha carteira vi  que tinha um homem sentado numa mesa, com mais seis caras, todos me olhando e passando a língua pelos lábios, mas aquele em especifico, alisava a calça.

Fiquei com tanto nojo que ao pegar meu lanche corri para a minha sala. Esperei que todos os alunos entrassem na sala e consegui, enfim, respirar.Falei sobre o acontecido com uma colega e ela disse que eu tinha pedido aquele tipo de comportamento por estar usando um vestido assim. Mas não consegui entender o que havia de errado. O dia foi calorento e meu vestido não era mais que dois dedos acima do joelho. E mesmo se fosse um palmo abaixo da bunda, ou se minha bunda estivesse a mostra! EU NÃO PEDI AQUELES OLHARES, AQUELES COMPORTAMENTOS E MUITO MENOS AQUELAS CANTADAS!

Recebi uma mensagem de um ex namorado, ele dizia que queria conversar comigo, que algo havia lhe feito pensar que talvez eu precisasse de um amigo e que não teria segundas intenções, até porque ele já está em outra. Com o meu desespero não consegui pensar em alguém melhor para conversar.

Namoramos por tanto tempo, conhecemos toda a família do outro e tínhamos uma “amizade”. Dava pra conversar com ele.

Combinamos de nos encontrar na casa dele, a mãe dele estava querendo me ver também.

Após a aula fui pra lá, estava chorando um pouco me sentindo mais mal que quando acordei.

Ao chegar a casa dele, sentamos para conversar sobre como andavam nossas vidas, ele foi falando dos irmãos mais novos, da mãe, avó…trouxe um prato com dois sanduíches pra gente comer com dois copos de refrigerante.

Com quase uma hora após comermos a campainha tocou, mas eu já não conseguia me levantar. Minha memória ainda falha ao tentar lembrar.

Os minutos seguintes são uma confusão na minha cabeça, eu tentava acordar, mas não estava dormindo. Tinha uma sensação ruim, de peso no meu corpo.

A visão turva foi sumindo até que tive a sensação de que dormi.

Acordei meio tonta e sem sentidos.

Senti que o sofá onde eu estava antes estava muito longe, eu estava num lugar frio, meu corpo todo estava doendo. Minhas costas estavam doendo como se estivesse quebrada. Estava com enjoo. As minhas pernas estavam dormentes, eu não conseguia levantá-las. Quando abri os olhos tinha um homem em cima de mim.

Mas eu já não podia fazer nada.

Amarraram meus braços.

Olhei em volta e reconheci alguns rostos.

Alguns amigos do meu ex, alguns primos, o pai dele. O vizinho que uma vez soltou umas cantadas.

Eu não conseguia gritar, mas era tudo o que eu queria.

E então o choro foi a única coisa que pude colocar pra fora.

Quando aquele indivíduo saiu de cima de mim percebi que era um dos caras que estavam na mesa na lanchonete.

Quando perceberam que eu estava chorando mais alto amarraram algo na minha boca.

Levei alguns tapas e desacordei.

A última coisa que me lembro foi  de ouvir um barulho de cascalho. Estava tudo tão escuro…

Ouvi algum barulho e depois senti algumas mãos no meu corpo.

Me deitaram no chão em frente ao meu carro.

Foram embora em outro.

E eu fiquei ali.

Sem forças para levantar, sem forças para chorar, gritar…

Eu queria morrer!

Mas algo me dizia que eu realmente tinha morrido.

Aquilo tudo foi minha culpa?

O que eu deveria ter feito pra evitar?

Por que comigo?

Por que hoje?

Não sei como alguém me achou e me trouxe para o hospital, não sei como ainda vivo, respiro e penso.

Não sei se quero continuar vivendo, não sei o que fazer.

Só consigo lembrar de como todos aqueles homens me olhavam.

Por que me olhavam daquela forma?

Por que eu?

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Escrito por

♦ Brasiliense com sangue do Pará, amante de moda, culinária, cinema e música. Sonhava em ser bióloga marinha, mas vem se provando mais jornalista do que achava. Escreve menos do que sua mente produz, mas a memória deixa a desejar. Curiosa e repórter, então saiba que tudo o que disser poderá se tornar texto novo. E se a encontrar, prove seu abraço... dizem ser o melhor do mundo. ♦

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