Príncipe da maré

Ouvi sinos e gaivotas ao mesmo tempo em que as ondas quebravam na praia. E ao compasso dos segundos que meu relógio cantava dava para perceber que as ondas começavam a dançar conforme seu tic tac.

O sol já estava se pondo e a luz alaranjada dava lugar ao azul negro da noite e a frente da escadaria para a orla um caminho começou a surgir, ainda que estreito.

A água do mar se abria e fazia surgir um homem que estava deitado, como se desmaiado. Seu corpo parecia ter sido depositado pelas mãos do mar com tanta doçura que ele descansava em sono profundo.

Um senhor, que colhia conchas a beira mar para seu artesanato, o encontrou. Assustado o puxou pelas mãos, arrastando-o para longe do mar que no mesmo instante se rebelou. O céu enegreceu mais ainda e trovões começaram a gritar no céu.

O homem começou a tossir, mas continuou adormecido. O senhor saiu de perto para pedir ajuda com grande dificuldade já que carregava suas conchas capturadas há horas e suas juntas já não o suportavam por muito tempo.

Ele ficou deitado por mais um tempo até que seus olhos enormes começaram a se abrir lentamente, coçavam e doíam. Tentou sentar-se, mas não sabia como o fazer, tentava levantar-se, mas não sabia isso também. Após alguns minutos ali, deitado sem forças uma jovem se aproximou.

No princípio ela ficou com medo daquele homem jogado na areia, mas percebeu que ele parecia perdido. Se aproximou com cautela e o observou. Ele parecia sem forças. Achou que talvez ele tivesse se afogado e alguém foi pedir ajuda, pelo cansaço que demonstrava e a falta de forças para se levantar.

– Quer ajuda? – ela perguntou.

– Sim, por favor. – ele respondeu após um pequeno susto ao ouvir sua voz tão doce.

Ela se aproximou e tentou levantá-lo, mas ele não conseguia. Foi então que decidiu puxá-lo pelos ombros até a ponte que estava ali mais atrás.

Percebeu que os olhos daquele homem eram enormes, quase pareciam duas ameixas púrpuras, seus cabelos eram extremamente sedosos e negros, que caiam nos seus olhos quase como uma cuia. E o que mais a surpreendeu era sua roupa branca como a nuvem que estava seca.

Notou o rapaz pesaroso e o questionou sobre. Ele, por sua vez, entristeceu-se mais um tanto e cabisbaixo disse.

– Estou tão cansado dessas noites.

A moça não o entendeu, mas sentiu a dor dele.

Sem que percebesse já o amava, ardentemente. Mas ele estava fadado a dor, a tristeza. Seu coração já não se aquecia com qualquer amor que fosse e isso o depredava, o destruía, o matava.

Ela queria cuidar dele, então com muita dificuldade o levou para a sua casa, que não ficava muito longe dali, e pensou que se o deixasse na varanda ninguém o descobriria. O deitou no chão com uma almofada na cabeça, preparou algo quente para ele comer o que o deixou completamente enjoado.

Foi então que ela o puxou para seu colo, fez carinhos nos cabelos negros dele, o que o fez amá-la. Mas sabia que não poderia fazer isso novamente. Ela não merece, pensou.

Antes que adormecesse no amor que ela lhe entregava resolveu contar sua história.

– Meu nome é Uiara. Sou da Amazônia, estão matando minha família e eu tive que fugir, mas fui capturado e jogado ao mar, isso me causou dores e ferimentos por causa da água salgada. Me apaixonei algumas vezes, as moças correspondiam, mas eu tinha que fugir antes do amanhecer e por isso venho recebendo ameaças. O que ninguém sabe é que não posso ser visto durante o dia.

Ela ficou assustada, teve um pressentimento. Mas ao olhar no fundo dos olhos dele a única coisa que conseguia sentir era amor.

Antes que a lua estivesse na metade de seu reinado a moça beijou Uiara, com paixão. E eles se deitaram juntos. Havia amor e paixão, mas o rapaz continuava triste, como se aquilo tudo fosse mais uma noite comum e realmente era, mas para ela era o início de um romance que jamais vivera até ali.

Antes que o galo cantasse, antes mesmo do primeiro raio de sol brilhar no horizonte, Uiara levantou-se recuperado como milagre e silenciosamente deixou sua amada da noite.

O boto precisava fugir de mais uma família, mais uma ameaça e da água salgada, antes que o sol nascesse e ele voltasse a sua forma rosada.

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Escrito por

♦ Brasiliense com sangue do Pará, amante de moda, culinária, cinema e música. Sonhava em ser bióloga marinha, mas vem se provando mais jornalista do que achava. Escreve menos do que sua mente produz, mas a memória deixa a desejar. Curiosa e repórter, então saiba que tudo o que disser poderá se tornar texto novo. E se a encontrar, prove seu abraço... dizem ser o melhor do mundo. ♦

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