O Reino das Águas

Era uma vez um reino distante cujo a fé no seu Deus era do mesmo tamanho que nos reinados que o guardava. Ali o povo não havia entrado em guerra há dois séculos e as quatro famílias reais se entendiam muito bem. Havia uma única igrejinha que era cuidada pela família real de Leonel, cujo filho mais velho era o guardião do coração mais puro que a igrejinha já havia tido.

A família real de Galeone era um tanto distante da anterior, o rei Reginaldo fazia jus ao nome e sua inteligência era enorme, mas não quando se tratava de suas doze filhas. A mais nova era bondosa e os anjos lhe deram o nome de Ágata, em sonho, e ela era a que mais sofria. A diferença de idade entre Ágata e suas irmãs era o que mais lhe afastava de seu reino, sua mãe havia ficado grávida já com idade avançada e por milagre sobreviveu ao seu nascimento. Todas as moças deste povoado eram mais velhas pelo menos dez anos. E sua irmã -anterior a ela- era quinze anos mais velha.
Isso fazia com que Ágata visitasse os reinos vizinhos em busca de amigos, coisa que seu pai proibia.

A família real de Albus era pequena. Apenas ele havia sobrevivido a uma peste. Por sua idade avançada ele era conhecido como o mais sábio dos reinos, nem mesmo a inteligencia do rei Reginaldo chegava perto. Ele andava vagarosamente, mas sempre com seu gorro real, já que não suportava carregar a coroa, e amava estar entre seu povo.

Já a família real de Beltrão sempre muito ríspida e rigorosa era chefe da guarda real dos quatro reinos. Os quatro povos podiam ajudar na guarda de seu reino, mas deveriam seguir às ordens do rei Beltrão. E mesmo assim não havia nenhuma discussão porque todos se entendiam e a paz ainda residia entre todos.

Os picos das montanhas estavam cheios de neve quando em uma expedição comandada pelo príncipe Leonardo Leonel e supervisionada pelo príncipe Augusto Beltrão, juntos, buscavam por riquezas escondidas entre as águas que cercavam a todos impedindo-os de chegarem a outras terras.

Foi quando encontraram Arthur, que ainda tentava retirar uma espada da pedra. Ele passara os últimos seis meses tentando retira-la dali sem sucesso. Albus havia dito em sua última aparição num baile dado pelo rei Reginaldo, que existia ainda a segunda profecia de espada. Profecia essa que reuniria todos os quatro reinos em um só novamente, e que não deveria criar guerras já que o escolhido seria o mais valente dentre os homens e dono do coração mais puro dentre os povos. Este não iria repartir as riquezas e nem dividir os quatro povos. Como todos já conheciam a história de um outro Arthur esperavam que o possuidor deste nome conseguiria e o fizeram procurar a espada e retira-la.

Leopoldo, um jovem que estava deixando as espinhas, pediu para que os dois príncipes tentassem. Na sua opinião este escolhido deveria ser de uma das famílias reais e apenas os dois poderiam ser, já que Reginaldo só tinha filhas mulheres e Albus havia perdido seu único.

A espada brilhava, toda prateada. Tinha uma pedra azul entalhada na base da lâmina, um pouco acima do punho da espada e luzes da cor do céu da manhã a rodeavam. Augusto foi o primeiro a tentar, sabia que era o extraordinário (como seu povo o chamava), mas sua soberba o arremessou para longe ferindo-lhe a têmpora num pedaço da pedra em que a espada estava que saiu como que lhe dando um aviso.

Todos ficaram assustados, menos Leonardo… que estava hipnotizado pelo brilho de Estela, a espada. Como em um sonho ele viu Albus surgir numa nuvem de cor prateada, com sua veste toda da cor do mar dizendo “Você é o possuidor do coração mais puro! Diga a todos que não é a força ou a sabedoria, mas a pureza do coração que unirá todos os povos sem guerra.” Ninguém conseguia ver o que ele via e ficaram com medo quando perceberam que ele estava hipnotizado.

Sem medo e com semblante reluzindo luz dourada, o príncipe Leonardo se aproximou de Estela e a retirou da pedra sem precisar de força. Todos, inclusive Augusto, sentiram uma alegria no peito que não sabiam de onde vinha, mas deste momento em diante nunca duvidaram da pureza do coração do novo rei dos quatro povos.

Os homens que estavam nesta expedição voltaram diretamente para a praça do palácio do rei Reginaldo. Sabiam que um casamento deveria ser realizado e que deveria ser com uma moça da realeza.

Alice, a décima primeira filha do rei observava tudo pela janela da sala principal. Gritava chamando as irmãs que aflitas e curiosas se espremeram com ela para espiar a movimentação de fora.

Ágata, que havia saído às escondidas para procurar frutas nos arredores, assustou-se com os homens e algumas pessoas que gritavam e jogavam flores para o alto carregando o novo rei.

A rainha Ana saiu ao se dar conta que Ágata não estava entre as irmãs e logo imaginou que estivesse escondida entre os homens no pátio. O rei foi com ela até lá para que ninguém percebesse que sua filha havia saído às escondidas e também para tomar conhecimento da bagunça. Enquanto o rei tomava a palavra, a rainha -que encontrou a princesa pelo capuz branco- saiu vagarosamente para puxar Ágata pelo braço.

O novo rei, ao olhar para o lado, percebeu o capuz branco e embaixo dele cachos negros como o carvão que iam até a cintura da moça. Logo deu um jeito de descer do ombro de Arthur e Augusto que foram imediatamente contar sobre o que havia acontecido a Reginaldo. Ágata percebeu duas mãos em seu corpo. Sua mãe a puxava por trás e o novo rei que segurou sua mão ao seu lado.

A rainha Ana, que ficou assustada ao perceber o encontro dos dois, logo puxou a filha levando-a para onde o rei Reginaldo estava, enquanto Leonardo correu da multidão, que já se encontrava ali, tentando puxa-lo. Nessa hora as doze filhas, as doze Galeone, estavam ao lado de seus pais.

Fez-se um silêncio quando Leonardo aproximou-se de Augusto e Arthur que contavam o acontecido ao rei. Feito reverência à Reginaldo, Leonardo anunciou que precisaria de uma mulher para lhe dar seu nome e a fazer rainha. Disse também o que Albus lhe havia dito sobre o coração puro e terminou anunciando que precisava de uma mulher com o coração igualmente puro e bondoso.

Reginaldo lhe apontou as doze filhas e disse que Ana lhe daria a permissão.

Leonardo se aproximou de Ana, Ágata estava ao lado de sua mãe, ajoelhou-se e disse:

– Peço a mão de sua filha mais nova. A que carrega o nome da bondade, o coração corajoso e a alma capaz de harmonizar o bem e o mal mantendo o equilíbrio e a cura.

Ana ainda não sabia como sua caçula havia crescido tão rápido. Ainda um tempo atrás era uma menina levada com o cabelo mais bagunçado que havia no reino. Percebeu que não teria esposo melhor para ela e que seus corações eram realmente complementares. Então permitiu que o rapaz a desposasse.

A multidão entrou em loucura total ao ver o novo rei beijar a mão de sua futura esposa e respeitando toda a tradição que ainda existia naquela terra.

Albus, em sonho, anunciou ao novo rei que o castelo do reinado maior ficava no topo da montanha mais alta, a que tinha mais tempo frio e ao mesmo tempo as fontes de águas mais quentes.

Leonardo se empenhou em reconstruir a igreja ao qual mantinha cuidado e fez questão de colocar suas mãos em cada coisa. Refez cada detalhe e banhou em ouro algumas das paredes. Seu coração era fiel e forte, sabia que precisava manter sua palavra até o fim da vida, mesmo que tenha recebido mais responsabilidades.

Preparou, juntamente com a rainha Ana e sua mãe, rainha Zahara Leonel, tudo o que Ágata desejava para o matrimônio tão aguardado pelos quatro povos. A família real Beltrão jurou manter a guarda dos, agora, cinco povos, e Albus se manteve sempre ao lado do novo rei para lhe ajudar.

Após a grande cerimônia de casamento que reino algum viu tão mais bela, o rei Leonardo e a rainha Ágata saíram de encontro a sua nova casa, o castelo das águas, como já o chamavam. Ao chegarem ao castelo perceberam que havia realmente água por todo ele e seu povoado era tranquilo como a chuva leve que caía todas as manhãs ali.

Os mais jovens do povoado fizeram um caminho cheio de tulipas vermelhas por terem a certeza daquele amor que seria eterno entre o rei e a rainha e entre os dois para com o povo. E ainda tocavam bandolim e harpas cantando alegres.

Ágata foi primeiro para os aposentos para vestir-se para a sua noite de núpcias enquanto Leonardo retirava a armadura real e nobre.

Ela estava sentada num banco branco de mármore branco vestida apenas com um casaco de pele vinho admirada com a grandeza do palácio ao mesmo tempo em que sentia medo da responsabilidade que vinha junto.

Quando estava retirando o casaco para tomar banho na água que rodeava seu closet ouviu um barulho de mergulho, era Leonardo. Que estava confuso com as águas envolta do closet de sua esposa que ficava dentro de outro, o dele.

Ao notar que sua esposa estava tentando vestir-se por causa do susto ele foi ao seu encontro. Tocou-lhe a pele que estava quente como a água que os rodeava.

– Não tenha medo, Ágata. A responsabilidade vem, mas saberemos lidar com ela. – e lhe deu um beijo no ombro, que ainda estava nu.

Retirou-lhe o casaco e carregando-a no colo entraram na água a fim de atravessar e voltar ao centro do quarto onde se tiveram como amantes fiéis enfim.

O reino das águas foi rodeado por admiradores do amor que os reis tinham um com o outro criando ali um quinto povo, viviam na montanha mais fria e se apaixonaram pela magia que aquecia aquelas águas. Mesmo com a neve a água se mantinha quente. Albus disse que enquanto o rei tivesse o coração aquecido por sua pureza e pela bondade que vinha de Ágata a magia iria manter as águas quentes.

Os cinco povos obedeciam fielmente ao rei Leonardo que manteve as terras dos cinco reinados unidas como antes, mas agora mais aquecidos.

Se viveram felizes para sempre? Bom… esta história está sendo registrada pela bisneta deles. Maria. E garanto que as águas ainda são quentes e que os olhares de um para o outro ainda são puros e bondosos.

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Escrito por

♦ Brasiliense com sangue do Pará, amante de moda, culinária, cinema e música. Sonhava em ser bióloga marinha, mas vem se provando mais jornalista do que achava. Escreve menos do que sua mente produz, mas a memória deixa a desejar. Curiosa e repórter, então saiba que tudo o que disser poderá se tornar texto novo. E se a encontrar, prove seu abraço... dizem ser o melhor do mundo. ♦

3 comentários em “O Reino das Águas

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