I Crônica do Reino das Águas

Leonardo Leonel acordou de repente e seus olhos fitaram o lustre feito de chifres de veado-campeiro no alto do aposento real. O quarto cheirava a rosas e vinho e ainda guardava em si os aromas da noite anterior.

Ah… Leonardo agora lembrara-se das horas anteriores. Sua barba baixa ainda mantinha os odores do íntimo de sua esposa. Seus braços estremeciam ao recordar que ela estivera ali, ancorada à eles, numa espécie de prisão perpétua, jurada de amor. Suas coxas guardavam o frescor dos lábios da amada, onde se fizeram receptáculos para os beijos doces, doados em súplica toda a noite. E seus lábios, enfim, o filho da casa de Leonel, os esticava num sorriso largo, ao lembrar de que mapeou todo o corpo daquela a qual entregara seu coração, na tentativa de demarcar pelas curvas deste corpo, nu e quente, o território que haveria de ser seu pela eternidade e, no qual, mergulharia tantas vezes mais em densas noites de amor.

O agora Rei Leonel, Senhor do Palácio das Águas, finalmente levantou-se de sua cama retirando com cautela as peles de urso-do-norte sobre si e mais cautelosamente retirou de sobre seu peito as mãos de sua mulher. Caminhou, nu, até a janela mais próxima e abriu-a sorrateiramente, na esperança de não interromper o sono de sua companheira.

O vento gelado da manhã transpassou sou corpo forte e o fez sentir dores agudas por sobre suas cicatrizes no peito e nas costas – heranças de batalhas pequenas, que guardavam histórias de outrora. Leonardo olhou por sobre a sacada do aposento real e admirou aquela paisagem tão familiar e ao mesmo tempo tão desconhecida.

Pesava sobre sua alma o fardo da responsabilidade que assumira ao se casar com a filha de Galeone e levava em seu coração o futuro incerto que teriam a partir de agora; futuro esse que os aguardava ansioso para se revelar como sendo não tão dócil assim e nem de tão fácil domínio. Como um raio, lembrou-se das palavras ditas por Albus, no dia em que desembainhara a espada Estela da rocha (chamada “A Bruta”) no Monte Nevado, ao norte da Casa Beltrão: “Você é o possuidor do coração mais puro! Diga a todos que não é a força ou a sabedoria, mas a pureza do coração que unirá todos os povos sem guerra”. Mal sabia Albus o peso que esta profecia trazia ao Rei Leonardo; aquele nem sequer imaginava que este rei perderia inúmeras noites de sono, atado à ansiedade em cumprir com esta responsabilidade.

Leonardo, de súbito, ouviu um grunhido leve e agudo e, ao virar-se à direção de sua cama, avistou Ágata Galeone, agora rainha da Casa Leonel. “Meu Deus” – pensou o rei – “como és linda, minha amada”. A Rainha Ágata tinha os cabelos negros como ébano, caídos em cachos formosos, que roçavam-lhe as costelas. Seu corpo era como um vaso (o mais belo vaso!) feito em curvas suaves que desciam de seus seios e contornavam-lhe as coxas, como uma dança de ventos redemoinhos, uma perfeita dança de ventos; era de um moreno âmbar gracioso, como nunca havia sido visto por toda a extensão daquelas terras antigas! No rosto, um par de olhos profundos, que guardavam segredos ocultos e transmitiam paz até mesmo àqueles que se encontravam em longa distância. E, cravados acima do queixo, um par de lábios carnudos que agora sorriam para seu dono e amante, o rei. Estava nua e Leonardo admirava-a como se ainda não tivesse tocado e transpassado aquele corpo.

– Minha Rainha… – disse o homem, estendendo-lhe os braços.

Num toque suave, acariciou-lhe os seios e num beijo demorado no pescoço, saudou-a, roçando-lhe a barba até seu ombro.

Leonardo certamente lhe falaria sobre seus planos, seus projetos e receios. Certamente. Mas não naquele momento. Naquela hora apenas pensava em ter com sua esposa, sua amada. E, num beijo intenso, agarrou-lhe a coxa com força, levantou Ágata em seus braços e levou-a à cama, com todo o desejo do mundo em satisfazê-la de amor.

 

 

 

 

Autoria: TOM DARCY*

A estória de “O Reino das Águas” está virando livro. Mais detalhes em breve.
Com autoria de Águida Leal e Tom Darcy*

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Escrito por

♦ Brasiliense com sangue do Pará, amante de moda, culinária, cinema e música. Sonhava em ser bióloga marinha, mas vem se provando mais jornalista do que achava. Escreve menos do que sua mente produz, mas a memória deixa a desejar. Curiosa e repórter, então saiba que tudo o que disser poderá se tornar texto novo. E se a encontrar, prove seu abraço... dizem ser o melhor do mundo. ♦

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