Chuva e tempestade

Seus olhos, esverdeados como folhas de laranjeira ao receber a luz dourada do sol se pondo, estavam cansados e ansiando por chuva, mas aquela chuva pessoal em que cai pelos olhos conforme os pensamentos mudam e os sentimentos fazem apertar o coração. Lhe faltavam palavras, a boca, seca, não conseguia pedir ajuda e sua chuva estava forte. Soluços ficaram mais altos, seu corpo se contraía e tendia a fechar-se como tartaruga escondendo-se no casco.

Se perdia pelo tanto de informação em que sua mente trabalhava, enquanto os soluços mantinham-se frenéticos e sua garganta doía por guardar tanta coisa. Foi quando conseguiu gritar, sua chuva ficou mais forte, tornou-se tempestade. Seus soluços tornaram-se trovões e a cada gota que descia pelas bochechas e boca, um sofrimento ia deixando seu corpo.

E quando a chuva foi perdendo a força, seus olhos verdes foram ficando inchados e vermelhos. Sua voz voltou a vida com alguns leves e roucos gemidos para que qualquer pigarro que estivesse lhe incomodando desse espaço ao ar que entrava pela boca. Seus lábios, vermelhos e levemente inchados, ficavam abertos e controlando sua respiração, seu peito não palpitava mais tão forte e as contrações do seu coração já não eram tão visíveis nele e nem no pescoço.

Seu corpo já estava ao chão, encostado ao pilar de sua dor que desmoronou, caindo por terra, fazendo seu corpo se assustar com a forma como aquela rocha não era mais solo, não sustentava mais nada. Percebeu que deixando a chuva virar tempestade e sair de si, se encontrou leve como se o sol reaparece e o céu se tornasse limpo. Suas nuvens de pensamentos foram sumindo, tão lentamente quanto seus olhos piscavam, foi se acalmando como o mar, seu navio estava chegando perto do porto. Seu porto era ele mesmo.

A dor se foi, o peso se tornou leve, a chuva deu lugar ao sol mesmo que seu corpo ainda estivesse ao chão e seus olhos quisessem se fechar para se permitir descansar e descansou. Seu sono era como o céu azul, limpo e calmo e de tão leve deixou tudo ir embora, e os sofrimentos partiram.

Seu sonho o fazia lembrar coisas boas, permitindo-o manter as memórias, mas também o fazia aceitar que tudo estava diferente agora e quando acordou ficou sem entender o que sentia. Lavou o rosto, se olhou no espelho e encarou o próprio reflexo tentando se sentir bem com o que via e, pela primeira vez, realmente se sentiu bem.

Aprender a conviver com a dor é amadurecer e saber que mesmo que o sofrimento seja pesado, ele passa, acaba e te prepara para os tantos outros que virão com a mesma certeza de que no fim tudo ficará bem.

– Águida Leal

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Escrito por

Estudante de Jornalismo e brasiliense. Apaixonada por cinema, literatura, música, culinária e beleza. Com família paraense, das raízes indígenas, se criou em Brasília onde pode descobrir mais sobre o mundo e se apaixonou pela profissão que escolheu. Criou o Diário em 2014, quando decidiu manter vivas as poesias que mantinha em cadernos por anos.

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