Brother Brew – Cervejaria brasiliense

Há algum tempo venho aprendendo a escolher cervejas, principalmente saindo das opções mais comerciais para aqueles churrascos entre família ou amigos. Descobri que gosto de ler rótulos à procura de informações que nunca pensei serem importantes.

Pensando nisso comecei a pesquisar produtos feitos na minha cidade para me envolver mais ainda com essa cultura tão bacana.

Foi assim que conheci Tito e Igor, dois amigos cervejeiros daqui de Brasília que estão com uma proposta muito bacana e trazendo novidades para nós, meros amantes de uma gelada.

Conversando com eles descobri um milhão de coisas que nunca sonhei sobre o processo de produção, estudo dos sabores e os “n” produtos no mercado e suas particularidades. Eles me abriram uma porta e agora faço o mesmo com vocês, trazendo alguns detalhes na entrevista abaixo.

Ah! E uma das cervejas deles entra no mercado até abril! Nós provamos e já estamos bem empolgados.

Vocês se conhecem a muito tempo? Como surgiu essa vontade de fazer cerveja?

Tito: A ideia nasceu faz tempo, nos conhecemos há dez anos.

Igor: É, mas esse ano nós decidimos centrar mais nessa vontade e fomos estudar. Tito se especializou na parte de produção, criou e montou todo o nosso equipamento. Nosso processo de produção foi todo estudado por ele. Eu foquei no estudo para ser sommelier: conhecer os sabores mais afundo.

* Não sabe o que é sommelier? Ou acha que se enquadra, mas não tem certeza? Leia essa matéria e esclareça algumas dúvidas mais frequentes *

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Como surgiu o nome?

Tito: O nome foi bem rápido, era fácil escolher, porém fomos chutando até acertar dentro da nossa primeira ideia, sempre quisemos puxar para algo relacionado à irmandade, por isso o Brother. Brew vem de um processo da cerveja, seria como fazer a cerveja ou um processo específico, como fermentar por exemplo.

Viajaram muito em busca da “cerveja perfeita”?

Tito: Nós sempre tivemos um apreço por culinária e Igor sempre gostou de procurar por algumas cervejas, principalmente em contexto de aventura, como em viagens.

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Igor: Sim, fiquei quase um ano e meio viajando semana sim, semana não, conhecendo muitas cervejarias pelo Brasil. Isso aguçou a vontade de fazê-la. Aqui em Brasília temos vinte e cinco ou vinte e sete cervejarias. Minas, por exemplo, tem muitas e foi nos encantando poder conhecer algumas.

Tito: Conheci algumas cervejarias no Sul, mas gostava mesmo era de beber. Não queria saber como era feito, só queria beber mesmo (risos). E do nada surgiu esse interesse que, no início, era por criar um estabelecimento com cerveja especial, uma cervejaria, mas descobrimos, no fundo, que o que queríamos era produzir. Fomos a um evento em São Paulo que era separado em vendas e produção, foi o que nos colou no ponto certo. Já saímos de lá comprando equipamentos e procurando contato para produzir em cervejarias mesmo.

Então sempre quiseram fazer sua própria cerveja?

Igor: Sempre pensamos em trabalhar com isso, mas, quando decidimos tirar do papel, o primeiro plano era um lugar para vender e que pudessem consumir alí, mas nossa pesquisa sobre o mercado apresentou saturação. Então, procuramos participar de eventos, feiras, reuniões, ir a lojas, e fomos mudando aos poucos o nosso foco. Até que descobrimos o termo cerveja cigana, em que a fábrica produz a nossa cerveja em troca de nomes.

A cerveja de vocês, hoje, é a melhor para vocês?

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Igor: Cervejeiro é infiel, nós não bebemos apenas a nossa como ninguém bebe somente uma. Mas trabalhamos para que fique boa como esperamos que qualquer outra seja, respeitando o tipo da cerveja. Eu gosto muito das belgas, trapistas, sour… inclusive, há boatos da escola brasileira surgir primeiro com o estilo Suor, produzida no sul, chegando ao mercado em breve.

Tito: Nossa vontade é fazer as pessoas escolherem a nossa. E isso de ser infiel é fato, acho que é mais fácil a pergunta sobre o estilo favorito, eu gosto muito da escola inglesa, a Stout, por exemplo, que é mais escura.

Vocês querem continuar com o termo cerveja artesanal ou mudar esse rótulo e ser nacionalmente conhecida, como as produzidas em larga escala?

Igor: Tem cervejarias, hoje, sendo compradas e que continuam no caminho artesanal. Algumas se destacam bem, mas acredito que não é preciso deixar de ser artesanal, geralmente mudam esse termo para cerveja especial.

Tito: Acho o termo artesanal errado, porque não somos nós quem, de fato, fazemos o produto, alguns até brincam afirmando serem as leveduras. E também porque a partir do momento em que saímos de casa e produzimos em uma fábrica, deixa de ser uma forma leiga. Mas ainda acho impossível esse espaço, acredito que o contrário aconteça com mais facilidade, deles buscarem referências nas artesanais.

Igor: E as em larga escala visam o lucro, o foco deles é vender mais, por isso é mais comum que sejam populares. Nós fazemos a cerveja que nos agrada em primeiro lugar, para que quem a consuma aprecie e a escolha justamente por saber que é diferente. O foco é o que se destaca, nós queremos uma produção mais elaborada que o lucro abundante. Isso é basicamente a alma da cerveja artesanal.

A cerveja de vocês se encaixa em qual tipo?

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Igor: A primeira é uma Belgian Blond Ale com especiarias, pela Beer Judge Certification Program (BJCP) ela entra como Specialty. Mas não tem uma categoria totalmente definida porque a Escola Belga não categoriza muito, isso vem mais da cultura americana.

Para quem tem curiosidade no processo de fazer, como é?

Tito: Primeiro começamos com a água, daí vem aquelas tantas propagandas sobre filtrar várias vezes. Nosso professor é alemão “raíz”, ele brinca que não precisamos filtrar tanto, ainda mais em Brasília onde temos um tratamento muito bom. Nós trabalhamos com temperaturas especificas, quando atingimos a ideal jogamos o malte muído e ele precisa estar num ponto em que não esfarinhe o grão, mas apenas abra o grão.

Igor: É que o malte pode ser qualquer grão. O processo do malte é: quando o grão está germinando, ainda antes de dar o brotinho, você corta o processo de germinação. Porque isso faz diminuir os açúcares alí dentro e amolece o grão, sendo mais fácil trabalhar com ele.

Tito: Por isso vem vários maltes, o mais utilizado é o Pilsen. Então você mistura os maltes, dependendo da sua proposta: trigo, ácidos, torrados etc. é feito o cozimento desses maltes até que a gente consiga extrair todos os açúcares deles. É feito, após isso, o teste do iodo, para ter certeza da extração desses açúcares. Eliminamos o malte, ficando só a casca. Daí para frente inicia a fervura, por 70 minutos, e vamos acrescentando os lúpulos. Primeiro de amargor e depois de sabor, aí é que se colocam as especiarias: cascas de laranja, coentro, rapadura, cacau em pó, clarificante e alimentos para as leveduras.

Igor: Nesse ponto é livre para a criatividade, tem quem coloque sal. É um momento de criação, só ir temperando o caldo. (risos) Depois de tudo, ferver o caldo, é colocado para esfriar. Também é quando se acrescenta mais Lúpulos e as leveduras.

* Leia mais sobre o Lúpulo no processo *

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Para quem é leigo e quer começar sua experiência nesse universo, o que indicam?

Igor: O primeiro passo é cair no puro malte, é um passo bem pequeno, mas necessário. O próximo depende muito do seu paladar, geralmente o do brasileiro atura pouco sabores amargos, por isso as industriais nacionais (mais populares) tem pouco gosto. Tem cervejas salgadas, ácidas, de trigo. A mais leve e que indico para quem quer começar uma experiência é a Weiss, tem outros aromas e não bate tanto com o amargor, é mais doce. E então ir de vagar, provando as com especiarias. Tem as de estilo Wit -mais condimentadas, Suor – mais ácidas, Pilsen -sabores de malte e lúpulo, etc.

E o mito do milho?

Igor: Veio mais por causa das guerras e problemas econômicos. Tanto as que foram feitas com o próprio milho, ou malte de milho, que é mais barato, quanto ao excesso de água. Aquela velha história do comércio em baixa e produtos que precisam ser feitos em massa a baixo custo, sem importância da qualidade ou sabor. Mas querendo ou não foi por isso que a cerveja chegou a tantas pessoas e é mais fácil alguém que começou bebendo estas parta para outros tipos. É algo normal no mercado.

* 7 mitos sobre o milho na cerveja *

Quantas cervejas vocês estão fazendo hoje?

Igor: Estamos produzindo três estilos, pretendendo lançar cinco.

* Mais informações em entrevista em vídeo que será lançado em breve *

Pretendem fazer chopp?

Igor: Na teoria não existe diferença na forma de produzir, apenas na forma de servir. Não precisa ser pasteurizado, basicamente é a única mudança. O nome vem da Alemanha, que era o copo de servir menor, o brasileiro foi na onda de pedir o mesmo, meio que numa forma de cópia. Mas temos vontade de fazer sim, vai depender da fábrica que conseguirmos.

Tito: Barril é certeza, temos a ideia de ter um espaço para engarrafar e deixar nosso rótulo bem marcante para que todos possam gravar o nome, marcar mais para o consumidor.

As vendas começam quando?

Igor: Estamos alinhando a nossa cerveja pra que no início de 2018 comecemos as vendas, até abril a primeira já estará.

Tito: Alguns amigos nos patrocinam, a gente costuma “vender” só para eles. Também é uma forma de feedback rápido, o que eles nos pagam nós investimos em mais produtos e nos faz provar nosso estudo na prática.

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Fotos: Joyce Nunes

Gostou? Tem perguntas? Estamos preparando um vídeo para esclarecer algumas dúvidas, responder perguntas etc. Se você tem alguma curiosidade não respondida, deixa um comentário que vamos te responder logo logo.

Para dicas do Igor para a sua ceia, confira as melhores opções aos pratos mais esperados da noite natalina.

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Escrito por

♦ Brasiliense com sangue do Pará, amante de moda, culinária, cinema e música. Sonhava em ser bióloga marinha, mas vem se provando mais jornalista do que achava. Escreve menos do que sua mente produz, mas a memória deixa a desejar. Curiosa e repórter, então saiba que tudo o que disser poderá se tornar texto novo. E se a encontrar, prove seu abraço... dizem ser o melhor do mundo. ♦

Um comentário em “Brother Brew – Cervejaria brasiliense

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