A figueira

(este é um epílogo de uma estória que está sendo produzida)
(outros posts de referência a essa estória em conto e crônica)

– Leonardo! – gritou o rei William da Casa de Leonel – Já completastes vinte e um anos, eu certamente vou lhe confiar a nossa igreja.
– Se insiste, eu não negarei tal serviço, acredito que sabes, deveras bem, o que fazes. Mesmo sentindo-me completamente inseguro diante desta responsabilidade.

– Meu amado filho! – interveio, docemente, a rainha Cássia – seu pai sabe que serás capaz, pois era um ano mais jovem que você quando assumiu o mesmo. Frei Gregório irá lhe ensinar tudo o que precisa saber e em poucos dias perceberá o quão fácil será.

A voz docemente rouca e um pouco fina de sua mãe lhe acalmava, mas o primogênito dos reis William e Cássia sentia-se inseguro com certa frequência, embora obediência fosse sua maior virtude.

O príncipe retirou-se do aposento real de seus pais seguindo para o seu enquanto pensava sobre como os próximos dias seriam, mas sem perceber saiu do palácio e começou a caminhar pelos jardins, precisava ter um momento a sós com seus receios antes que seus quatro irmãos o atrapalhassem. Principalmente a pequena Diana, dona dos olhos verdes como a esmeralda, que o fazia ler, para ela, os romances de sua biblioteca por todo um dia.

Na tarde daquele mesmo dia, enquanto o príncipe escovava seu cavalo, amigo de longa data, tentando colocar seus pensamentos em ordem. Reparou, então, uma carruagem se aproximando. Era branca como a neve e tinha detalhes em ouro que lembravam as curvas das ondas do mar, com lírios e tulipas brancas por cima, onde o sol tocava.

Percebeu, então, que era a carruagem da Casa de Galeone e confirmou ao ver a rainha Ana descer. Foi ao seu encontro curioso sobre o motivo de sua visita já que esta só acontecia uma vez por ano, quando sua mãe fazia aniversário, e não era o caso.

– Rainha! – lhe cumprimentou com beijo em sua mão esquerda após uma reverência.

A rainha Ana já tinha uma certa idade, mas era impossível perceber. Sua pele era morena não possuía tantas marcas de tempo, seus cabelos ainda negros como o ébano caiam aos ombros em cachos largos emoldurando rosto possuidor de olhos escuro como a noite.

– Príncipe Leonardo! Querido! Vejo que ainda se ocupa com seu amigável… – fez uma pausa à procura de uma lembrança de anos atrás, quando, ainda garoto, o príncipe recebeu em presente seu cavalo e lhe deu o nome mais divertido, segundo ela.

– Tuchê! – o rapaz sorriu ao lembrar do mesmo momento.

– Um nome adoravelmente divertido! – sorriu de volta.

– Não quero soar com indelicadeza, nem presunçoso, mas me pergunto o motivo para graciosa visita.

A expressão divertida da rainha deu lugar a preocupação que sentia, mas ainda serena.

– Minha Ágata saiu às escondidas logo que amanheceu e ainda não retornou, como o sol já está a se pôr pensei que seria melhor procura-la. Sei que ela sabe andar por essas trilhas sendo desnecessária tal preocupação, mas como mãe sinto-me no dever de ir atrás de notícias. Como vocês costumavam fazer isso juntos quando criança, me recorreu a possibilidade de tê-la visto por aqui, ela tem se interessado bastante pelas flores dessa região.

O príncipe escondeu um sorriso pois havia recordado a primeira vez em que viu Ágata, ela estava em cima de uma árvore com roupas atípicas para uma menina, muito menos da realeza, para não ser encontrada pelos trabalhadores de sua Casa enquanto ele buscava por frutas e flores – sempre encantado com a utilidade e beleza delas – numa de suas expedições com Augusto, que gostava de desenhar as terras por onde andavam.

– Ela deve estar procurando as frutas desta época.

– Ágata? Quando pequena costumava se esconder para comer as frutas na cozinha do castelo, mas as colher? Certamente não. Entretanto, não me surpreenderia. – disse a rainha seguindo de volta para a carruagem.

– Irei me certificar sobre a presença dela nessas terras, caso a encontre eu mesmo a conduzirei para casa. De qualquer forma, peço que entregue minhas lembranças ao rei Reginaldo! – ele a cumprimentou com uma reverência após a rainha lhe fazer o mesmo e retornou ao estábulo a fim de finalizar seus pensamentos, não obtendo sucesso.

Sua mente foi tomada por fortes lembranças assim que repensou a conversa com a rainha. A cena que recordara o fez ficar curioso sobre Ágata. Tinham a mesma idade, mas não se viam há alguns anos, devido a necessidade de registrar informações sobre a ilha fazendo-o perder muito tempo antes gastos com esses encontros. Perguntava-se se ainda era curiosa sobre a natureza como quando criança e se preocupou ao lembrar que ela não tinha medo dos bichos perigosos, ela acreditava na doçura de todos. Isso seria terrível, caso estivesse realmente perdida.

Montou em seu cavalo e seguiu ao encontro de Augusto que, com certeza, estaria treinando algo muito chato para se usar em combates. Chato apenas porque as quatro Casas Reais não entravam em guerra há dois séculos e viver em uma ilha não dava razão para estas guerras acontecerem.

Quando o sol se pôs, Leonardo chegou à Casa de Beltrão e encontrou Augusto no pátio perto do estábulo maior. Estava treinando algo com a espada, seu companheiro de treinamento gritava por estar apanhando a valer.

– Leonardo! Que surpresa! – disse Augusto se aproximando para lhe cumprimentar. Era possível ver o suor pingar de sua testa.

– Quanto tempo, amigo! – respondeu Leonardo ao cumprimentá-lo.

– O que o traz aqui? Fiquei sabendo da grande notícia, tomarás conta de nossa única igreja. Está preparado?

– A rainha Ana apareceu em minha Casa hoje à procura de Ágata e me perguntei se aquela garota ainda se pendura em árvores. Então pensei em relembrar os velhos tempos. – disse dando de ombros – E eu preciso mesmo fazer algo para não pensar neste fato por enquanto.

– Amigo, se sua segurança em si mesmo fosse tão forte quanto a bondade do teu coração, tua Casa seria temida por todas as outras por sua beleza.

– Mas sabemos que não é. E estou esperando sua resposta sobre procurar Ágata.

– Percebo que não mudou nada desde nosso último encontro. E eu jamais negaria a chance de pregar peças naquela princesa custosa.

– Ótimo. Então vamos. – disse Leonel montando em seu cavalo.

E seguiram pela estrada oeste, onde costumavam andar os três quando pequenos. De repente tudo estava no seu devido lugar, de forma confortável, segura e como jamais deveria mudar, segundo Leonardo. Até que, no meio da estrada, encontraram uma espécie de moradia escondida no alto de uma árvore.

– Isso certamente é coisa daquela inconsequente. – disse Augusto ao parar seu cavalo.

– Aquela árvore é uma figueira. Aquilo são tecidos?

– Definitivamente, essa princesa é louca.

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Escrito por

♦ Brasiliense com sangue do Pará, amante de moda, culinária, cinema e música. Sonhava em ser bióloga marinha, mas vem se provando mais jornalista do que achava. Escreve menos do que sua mente produz, mas a memória deixa a desejar. Curiosa e repórter, então saiba que tudo o que disser poderá se tornar texto novo. E se a encontrar, prove seu abraço... dizem ser o melhor do mundo. ♦

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