O jazz, um livro e uma falta de consideração

Recordo-me que o som dos metais estava impecável, uma mistura de jazz com algo alternativo, aquela voz rouca meio anasalada me hipnotizou e deixe-me levar por cada nota. Ele tocava piano como se soubesse antes mesmo dos seus primeiros passos dados. A cada frase cantada sentia uma palpitação diferente em cada veia que o sangue passava, a cada nota que o sax deixava meus olhos se fechavam, a cada nota do trompete eu sentia minha respiração, que estava presa, soltando-se levemente.

O ar entrava pelo meu nariz como se ajudasse a purificar tudo o que estava sentindo, e saía pela boca substituindo cada palavra que pensei em usar contra alguém numa discussão. A canção foi ganhando mais forma, chegando ao seu clímax, eu já sabia cantarolar o refrão e me permitia fazê-lo apenas na mente, conforme aquela voz rouca ia saindo tão natural. Tinha uma daquelas letras que sonhamos receber em juras de amor e me perguntava porque as pessoas as colocavam apenas em músicas, como se, ao dize-las, recebessem sentença de morte, e ninguém quer morrer. Até compreendia o medo da morte, mas nunca tive esse medo. Bom, nunca tive até agora.

Precisava sair de casa e andar pelas ruas para que visse pessoas diferentes, conversasse com elas, fosse um ser humano decente já que nunca fui. Sentia que meus cachos, que estavam começando a dar o ar da graça, caiam aos ombros conforme dava passos mais fortes… era para ficarem presos, mas sempre se libertavam, tinham vida própria. A última vez que fui um ser humano decente fazia anos… havia endurecido o coração por ter tido tantas desilusões, jogava a culpa de minha ingenuidade em acreditar em todos para qualquer um que fosse gentil, como se ser gentil fosse de fato ruim. Eu achava mesmo que era ruim.

Tinha feito uma viagem, meses atrás, em que quase morri. Escutei tiros, acordei com gritos e com o balançar do veículo. Ainda posso sentir tudo aquilo ao fechar os olhos. Desde então passei a temer a morte, menos quando ouço jazz. Esse tipo de música me acalma, faz parecer que tudo é gracioso de mais, faz a vida parecer atrativa como capítulo inicial de um livro novo. Adorava ler, mas não me recordo a última vez que terminei um livro sequer.

Passei em frente a um sebo, sempre gostei de coisas antigas, principalmente livros, mesmo tendo alergia. Entrei, jurei a mim mesma que apenas ia conhecer novas sinopses. Era para ser só isso, mas não foi. Nunca era entrar só para olhar. Um livro me chamou a atenção, era um clássico… o havia lido várias vezes, mas perdido num desses empréstimos que nos arrependemos. O livro mais conhecido de Jane Austen em versão original, quer dizer, para mim aquilo era o mais próximo do original.

– Como as pessoas podem simplesmente se livrar de uma obra tão maravilhosa e nessas condições? Deve ter tanta história nessas páginas. – Suspirei abafado soltando um pensamento sem perceber.

– As pessoas costumam cansar facilmente de coisas boas. – Uma voz rouca disse ao fim do corredor. Assustei-me. Achava ser a única que frequentava sebos. Ridículo pensar isso já que eu jamais sustentaria uma loja sozinha.

Olhei para o lado ainda surpresa, com os olhos bem arregalados apertando o livro até as pontas dos dedos ficarem vermelhas. Após voltar o rosto rapidamente para o livro que segurava, procurei ser sociável. Um ser humano decente, pensava. Mas após o susto, encarei-o por menos de trinta segundos deixando um sorriso e voltei os olhos ao livro, novamente. Era impossível agir como alguém decente de fato, vivia há tanto tempo sendo solitária que qualquer tipo de contato me deixava insegura e incomodada.

– Se você gosta de romances épicos, deveria levar este também. – Ele trazia um livro que qualquer outra pessoa apelidaria de bíblia, com capa azulada e uma mulher de costas no canto esquerdo. Podia sentir o ar preso na garganta. Aproximações intimidadoras. Respira. 1, 2, 3, 4…

– É uma estória de viagem no tempo, em duzentos anos, é um romance cheio de altos e baixos. Quem lê não se arrepende. – Ele interrompeu minha contagem quebrando o silêncio novamente. Olhei para a bíblia que ele tinha em mãos após encarar os olhos mais verdes que já vi. Seriam bonitos se não fossem intimidadores.

– Essa fonte na capa lembra livros infanto-juvenis. Tenho preconceitos com livros desse tipo, me convença de que estou errada ou levo apenas este aqui. – Apontei para o meu clássico tentando manter o sorriso educado. Clássicos são sempre a melhor opção, você sabe o que tem, não se arrisca e ainda mata a saudade de personagens bem construídos.

Ele coçou a barba enorme que tinha no rosto, seus dedos eram finos e compridos. As unhas eram bonitas até de mais, não parecia que ele as fazia, mas deixaria algumas mulheres com inveja, parecia mãos de músico. Cresci com músicos por perto, violinistas, violoncelistas, saxofonistas, trompetistas e pianistas, se tinha algo que eu conhecia era mãos de músicos. Eu mesma me arriscava um pouco no violão, embora fosse grande desafio tocar as músicas que gostava de ouvir.

– Olha, essa definitivamente não é uma estória infanto-juvenil. Para começar, logo no primeiro capítulo você descobre que a narradora adora seus momentos, hm – ele coçou a cabeça parecendo buscar palavras que não soassem ofensivas – íntimos com seu marido. Além de ter muita guerra histórica descrita. Só não sei se as continuações te agradariam, autores adoram explorar estórias boas como essa até estragar tudo, ou até que ninguém mais as ature.

Olhei para a capa daquela bíblia, folheei ele todo, descobri que tinha 797 páginas e arregalei os olhos impressionada. De fato, aquele livro deveria ser muito bom ou eu teria que voltar lá e brigar com aquele vendedor.

– Está querendo apenas me vender um livro caro, ou realmente deveria te levar a sério e ler isso? – disse virando de frente para ele enfim. Até então estava confortável em olhá-lo apenas sobre meu ombro, de uma forma não grosseira, porém nem tão acessível. Seja um ser humano decente.

– Eu não trabalho aqui, mas gosto de dar boas dicas às pessoas. – Ele riu e pude vê-lo brilhar, era intrigante. O som rouco e controlado para que não fosse alto a ponto de atrapalhar outras pessoas me fez estremecer os braços como se a bíblia fosse pesada demais e meus braços cansassem de segurá-la. Seu sorriso era emoldurado com uma barba castanha, dependendo de como a luz tocava-a denunciava fios loiros, era uma barba bem cheia e quase chegava à metade de seu pescoço. Seu cabelo era mais claro um pouco, os fios loiros brilhavam mais forte. Era o rapaz mais loiro que já vira de perto, como aqueles atores de filmes hollywoodianos.

– Ainda não me convenceu. – Sorri automático, parecia um sorriso forçado de quem não quer sorrir para a foto, mas sabe que vai ficar estranho se não o fizer. Seja um ser humano decente.

Ele encarou meu sorriso e riu de novo, como se percebesse que estava em território desconfortável para mim.

– É um bom livro. Longo, mas envolvente o bastante para te deixar sem querer ler outra coisa, ou viver fora dele… porque você vai se sentir dentro dele como se fosse a própria Clair Beauchamp Randall e vai desejar um James Fraser para si da mesma forma que deve desejar um Mr. Darcy. – Ele deu de ombros ainda sorrindo, parecia sorrir até mais.

– Esse argumento foi convincente. Aliás, como sabe que desejo um Mr. Darcy? – o segui com os olhos ao vê-lo se afastar.

– Todas as mulheres que leem Orgulho e Preconceito e de fato gostam do livro, desejam um Mr. Darcy. É uma daquelas verdades absolutas sobre o universo.

Dessa vez o riso rouco e controlado foi o meu. Era uma bela observação. Pela primeira vez desde a intromissão consegui ser um ser humano decente, estava socializando com um estranho… quem diria.

– Realmente, todas desejam o maravilhoso Fitzwilliam Darcy. Ou pelo menos morar no castelo de Pemberley, principalmente se fizer o caminho por Derbyshire a pé e souber que ele te espera mesmo debaixo de chuva para dizer te amar ardentemente. – Ênfase na última palavra dessa frase era obrigação de qualquer fã.

Ele pareceu surpreso ao me ouvir, o que o fez rir novamente. Comecei a gostar da risada dele. O som era… confortável.

– Leva esse, você vai gostar. – disse apontando à bíblia que estava em minhas mãos e eu esquecera.

– Conhece algum clube de leitura dessa autora? Gabaldon… acho que já ouvi falar dela. – perguntei lendo o nome com atenção e buscando na memória algo que a relacionasse sem sucesso.

– Não, infelizmente. Mas meu número está na última página, esse livro era meu… trouxe aqui para desapegar na esperança de que alguém o lesse e o amasse tanto quanto eu. As pessoas costumam cansar facilmente de coisas boas. – Deu de ombros e virou-se, o tom de voz aumentava a cada passo que dava para a porta – pode me mandar mensagens quando estiver desesperada com menino Jammie, posso rir disso além de que vai ser legal sentir as primeiras impressões novamente. Ainda amo o começo dessa estória.

Ele me deixou sozinha enquanto encarava aquela bíblia decidindo levá-la comigo e com o meu clássico em versão “original”. Cheguei até o caixa topando pelo menos três vezes porque lia as primeiras páginas já querendo devorar o romance.

Seja um ser humano decente e educada com o senhor no caixa… e ande mais um pouco pela cidade. Pensei sem sucesso. Voltei para casa e me tranquei por pelo menos cinco horas sem ao menos ousar tocar o telefone que resolveu ficar frenético. Após cansar a vista de tanto ler e desejar dormir o que restava daquela noite, toquei o celular para checar as horas e ver porque esteve tão agitado. Tinha pelo menos cinquenta e três mensagens de Gabriela. Ok, não eram exatamente cinquenta e três, mas ela conseguia mandar as palavras separadamente para me irritar o suficiente para pegar o celular. Já havia desacostumado desse hábito de responder em segundos.

19h00 “H”

19h01 “E”

19h02 “L”

19h03 “L”

19h04 “O”

20h30 “Está atrasadíssima.”

22h50 “Espero que esteja feliz, você acabou de perder o posto de melhor amiga.”

01h40 “Sua ingrata. Eu sou a única que te tira desse casulo solitário que você chama de casa. Nem ouse aparecer mais aqui.”

03h37 “EU NÃO ESTOU BRINCANDO.”

– Droga! – gritei.

Havia perdido a grande festa de aniversário planejada há meses. Peguei a chave do carro e corri até a garagem, topando pelo menos duas vezes, uma em cada porta que tem nesse caminho.

– Você não presta nem para ser um ser humano decente! – esbravejei enquanto socava o volante até fazer a curva na calçada. Sorte que a casa de Gabie ficava a dez minutos da minha.

Houve dias em que não queria sair de casa, não conseguia sair para fazer nada. Tinha vontade de chorar a todo momento, sensação parecida como de afogamento… tentava respirar e não conseguia, tentava sair daquela espécie de lama de sentimentos e não conseguia, não entendia o que era nem porque me consumia, enfim, me entregava por desistência. A dor deve ser sentida, lembrara nesses dias. Gabie era quem me ajudava, quem segurava o pedaço de madeira para que eu agarrasse enquanto me puxava para fora daquela areia movediça. Eu tentava lutar e teve dias em que conseguia sair de lá…, mas tinha aquela sina de pisar no lugar errado e cair de novo. Ela sempre estava perto para me socorrer. E agora, eu não estava com ela. Tinha prometido que iria.

Bati a porta, abusei da buzina do carro, mas sem sucesso. Fiquei cerca de meia hora esperando algum sinal de vida e nada. Já era quase cinco da manhã quando resolvi ir embora, por mais que quisesse ficar ali até ela me deixar entrar, tinha receio… nossa cidade não é tão segura assim.

Me senti culpada por todo o caminho de volta, me julgando egoísta o suficiente para demonstrar com minhas ações que ela não era importante, ou que eu fosse sempre o centro das atenções mesmo sem desejar ou pensar isso, na verdade tinha medo dela guardar esses argumentos para si. Ela sabia que não era por isso que tinha faltado a sua festa, mas era comum se chatear. Eu teria levantado todos esses argumentos e teria tido como verdade, por que ela não? Tinha todo o direito.

Joguei as chaves em cima do aparador ao lado da porta e fitei o celular, tinha que pedir desculpas pessoalmente, mas sabia que era importante pedir logo então o fiz por mensagem. Fiquei um tempo fitando minha sala com um daqueles olhares mortos em que a gente nem pisca, meu sofá estava destruído, ter gatos tem seus contras. Percebi que tinha fome quando vi Shelter parando de arranha-lo e, miando, seguindo para sua vasilha de ração que estava vazia. Coloquei um pouco da ração de carne que ele tanto gostava e troquei a água, o cheiro dessa ração é tão bom que às vezes eu tenho vontade de comê-la.

Há umas duas semanas não conseguia comer direito, então fazia coisas que pessoas normais comiam no café da manhã. Panquecas de banana com aveia. Rápido, prático e gostoso. Comi rápido e tomando um suco de manga com morango que havia feito pela manhã voltei para o sofá destruído e encarei a grande bíblia que havia comprado mais cedo. Tinha devorado o meu clássico preferido a tarde toda e parte da noite e criado hipotéticas histórias das pessoas que passaram os dedos pelas mesmas páginas, me perguntando se gostaram tanto quanto eu. Aquele livro de quase mil páginas estava me fitando de volta como se pedindo para lhe dar uma chance e eu estava sendo difícil de ser conquistada, mas lembrava da conversa na loja com o dono anterior, tentando me fazer acreditar no grande trabalho daquela estória e conforme recordava suas palavras, ele conseguiu me convencer.

As primeiras páginas foram difíceis, os olhos foram pesando e já não conseguia me concentrar muito no que lia voltando várias vezes ao mesmo parágrafo até que peguei no sono.

Acordei assustada com mais um sonho ruim, cenas daquela noite do acidente… fazia tempo em que não tinha mais esses pesadelos. A luz do sol que entrava pela janela da sala me fazia fechar os olhos por não enxergar nada, a claridade entrava tão graciosa quanto uma daquelas malabaristas em panos suspensos. Às vezes imaginava o sol como uma bailarina, que seduz com seus movimentos delicados em forma de fogo, leve e fluído, porém forte e potente. Senti uma pontada no ombro, havia dormido de mal jeito de novo.

– Vou precisar pagar por uma massagem se continuar a dormir desse jeito – resmunguei levantando-me e vendo que Shel estava comigo o tempo todo.

Algo me dizia que Gabriela chegaria a qualquer momento chateada com algo ou alguém, provavelmente um namorado ou um próximo novo namorado. O livro enorme caiu no chão e me assustei com o miado de dor, mesmo não contendo o riso. Gatos são rápidos, o livro mal caiu em cima dele e seu pulo o livrou de ficar por debaixo, lambendo o local onde havia tido o encontro dos corpos.

(continua)

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Escrito por

♦ Brasiliense com sangue do Pará, amante de moda, culinária, cinema e música. Sonhava em ser bióloga marinha, mas vem se provando mais jornalista do que achava. Escreve menos do que sua mente produz, mas a memória deixa a desejar. Curiosa e repórter, então saiba que tudo o que disser poderá se tornar texto novo. E se a encontrar, prove seu abraço... dizem ser o melhor do mundo. ♦

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