Seco

Seus olhos permaneciam fechados, precisos e teimosos. As lágrimas escorriam como véu, como água forte e cristalina das Cataratas do Iguaçu, seu corpo respondia à força, gritava por socorro. Nada acontecia.

O silêncio era agudo, fino, incômodo. Existia similaridade com agulhas quando entram no nosso corpo, dor chata, inevitável. Cálida.

Não se sabe ao certo se era por ocasião da separação, do medo, da injuria ou da calúnia, esta última com certeza lhe causava repúdio, ódio. As outras eram venenos lentos, sedutores como a noite. E ela se entregava à sedução.

Havia tanta angústia palpitando naquele peito, tanto remorso, tanta renegação…

– Por que eu? – gritava – Porque dentre tantas pessoas eu fui a sorteada com essa injustiça? Devo desacreditar de tudo? Até que ponto vale ainda respirar este ar imundo e maldito? – entregava as palavras em meio a soluços, sussurrava parte delas por não ter força.

A dor tem dessas. Nos pega, nos consome e depois nos abandona.

Mas demora a abandonar.

As lágrimas nem haviam secado quando seu corpo estava dormente, já quase sem vida, pálido. Os olhos já não piscavam tanto, se convenceu do ardor. A garganta estava a dar nós.

– Por que nós? – sussurrou sem força alguma, sentindo a língua prender ao céu da boca de tão seca que estava.

Certamente os porquês nos deixam paranoicos. Se até Jesus se sentiu esquecido e abandonado por seu pai, quem somos nós para não termos o mesmo sentimento? Contudo, afaste de mim esse cálice. Deste martírio não beberei. Desta dor…

Era eu? Ou era este ser que se entregou?

Me falha a memória.

Já não existe paz, amor, felicidade, quando se entrega a dor. Esta faz o corpo sofrer muito mais que qualquer doença. Paralisia? Que isso perto deste ardor de sofrimento? Meu peito já não pula ao sentir o coração bater, quando este sequer permite-se bater.

– Guia, preciso de um guia! Guia espiritual, guia de alma… um guia! – pensou certa vez. Mas frustrada novamente foi.

– Desistir de tudo é a resposta. – resumiu em pensamento, já que estava seca de mais para qualquer outra ação.

Acabaram-se as lágrimas, acabaram-se as palavras, acabaram-se os sonhos e a vida.

Quem sou eu, afinal?

Um poço escuro, solitário e seco. Ninguém vem até mim, ninguém me procura. Já não dou ânimo, já não o sinto também. Já não vivo.

 

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Escrito por

♦ Brasiliense com sangue do Pará, amante de moda, culinária, cinema e música. Sonhava em ser bióloga marinha, mas vem se provando mais jornalista do que achava. Escreve menos do que sua mente produz, mas a memória deixa a desejar. Curiosa e repórter, então saiba que tudo o que disser poderá se tornar texto novo. E se a encontrar, prove seu abraço... dizem ser o melhor do mundo. ♦

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