Tatuagem: entrevista com Camila Corrêa Tattooist

Quando o assunto é tatuagem algumas pessoas ainda têm resistência à arte que ela representa, como quem não a vê dessa forma. Segundo a grande história dessa manifestação artística temos os índios, povos antigos ligados a natureza do local em que vivem/viviam, que sempre pintaram seus corpos. Com a chegada dos colonizadores, as pinturas no corpo passaram de curiosas a estranhas ou exageradas. Conforme os povos iam se misturando, menos manifestações artísticas no corpo apareciam, juntamente com os significados delas que, muitas vezes, tinham relação com seus deuses naturalistas (o Sol, o rio, a fertilidade da terra…).

Damos um salto no tempo e temos as tatuagens judias dos campos de concentração, em que ligamos a humilhação de ter o corpo violado e marcado com uma sequência numérica como é feito até hoje com qualquer tipo de organização industrial e afins. Além de, quando do fim do nazismo, muitos judeus ainda marcados que sobreviveram eram vistos com olhos de julgamento por quem ainda se mantinha contra a mistura dos povos. Existem diversos documentários que relatam esses acontecimentos. Já até tive vontade de tatuar algum “número” de alguma vítima do holocausto como forma de homenagem às almas que foram mortas por uma simples escolha de fé. Encontramos também as tatuagens que já nasceram como manifestação artística de desenhos diferentes com significados para quem as carregava no corpo em presídios americanos.

Em resumo, a tatuagem saiu de uma ação natural de povos ligados à natureza como forma de homenagem aos deuses ou como marcar uma conquista para o povo, com pinturas que saiam e poderiam “ser trocadas”, à sinais de marginalização ou inferioridade de povos considerados errados, como os presidiários e os judeus.

De toda forma, com o passar do tempo, quanto mais se falava sobre o tema, mais mudanças na percepção aconteciam. Daí foram surgindo cada vez mais amantes pela arte na pele que enxergam seu corpo como tela em branco e que passam a procurar artistas com características que se adequem ao que desejam para desenhar pelo corpo qualquer coisa que desejem.

Durante muito tempo ouvi que tatuagens eram negativas até chegar aos vinte anos e começar a estudar sobre o tema e reconhecer essas conclusões passadas que, infelizmente, ainda perduram para algumas pessoas, principalmente aos mais tradicionalistas. Mas como o estudo clareia todas as ideias e quanto maior a profundidade e detalhamento das pesquisas mais mente aberta ficamos, cheguei ao ponto de desejar ter marquinhas pelo corpo também, obras de arte ou simples desenhos.

Foi assim cheguei a uma artista que trouxe traços delicados e coloridos numa pesquisa rápida que fiz no Explore do Instagram. Logo que bati os olhos e vi tantos desenhos relacionados à Brasília, quis saber porque dessa opção, se era apenas dela ou dos clientes. Aqui começou uma entrevista maravilhosa que compartilho com vocês agora!

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Camila Corrêa, goiana criada em Uberlândia que vive há dez anos em Brasília, encontrou o amor pela tatuagem sete anos atrás, ainda com tatuagens comerciais (aquelas procuradas pela grande massa, como símbolo do infinito e afins). Ela estudou pra valer e, hoje, domina na ponta dos dedos e na precisão da agulha os estilos: Realismo, Pontilhismo, Old School, New School, Oriental, Aquarela, Fine Line, Geométricos, e outros.

Diário: Você sempre gostou de desenhar ou desenvolveu essa paixão agora mais velha?

Camila: Esse amor é desde a infância, mas era um hobby. Decidi arriscar na profissão em 2013, aos 27 anos, quando deixei de atuar na área da Educação Física mesmo já formada (pela UEG), abri um estúdio, o Rei Lagarto Tattoo (homenagem ao Jim Morrison).

Estúdio Tatuato - Divulgação3

Diário: Como começou a tatuar? Qual foi o ponto da sua vida que falou “hey, vou tatuar pessoas”?

Camila: Eu vim para Brasília como professora temporária, mas aí o contrato acabou e mesmo refazendo o concurso não consegui uma colocação muito boa. Só que fui juntando um dinheirinho e decidi que queria empreender em algo e dentre várias coisas, nada me enchia os olhos. Até que juntei a paixão por desenho e, pesquisando sobre tatuagem, fiz cursos e aí comecei a carreira. Mas minha mãe conta que quando criança eu riscava tudo e dizia que seria tatuadora, eu não lembro, mas se ela diz (risos).

Diário: Você teve apoio da família? Já tatuou alguém?

Camila: No começo não tinha muito, meus pais não gostavam. Mas conforme o tempo foi passando e fui crescendo na área, principalmente depois de participar do Brasília Tattoo Festival do ano passado, eles passaram a reconhecer a profissão mesmo. A primeira tatuada depois de mim, foi minha prima e eu que fiz. Depois teve um ou outro pintando o corpo também, umas duas primas e uma tia.

Diário: Você já começou com um estilo próprio?

Camila: Não. Comecei com o comercial, os que todo mundo aprende a fazer logo de cara porque são os mais procurados.

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Diário: Demorou muito para ter um estilo?

Camila: Fiquei um bom tempo tatuando esses comerciais, ou com desenhos que traziam pra mim, era bem raro as pessoas me pedirem um desenho meu. Isso foi me saturando, a mesmice. Então resolvi mudar meu trabalho, procurei cursos de estilos específicos e comecei a produzir os meus desenhos, deixar meu traço mais identificável. Mas isso deve ter uns dois anos.

Diário: Tem diferença de procura por desenhos baseado no local do seu estúdio?

Camila: Bom, eu comecei tatuando no Recanto das Emas. A procura, por lá, eram mesmo as mais comerciais. Recentemente abrimos esse estúdio (Asa Norte) e a procura mudou, como já tenho um traço mais conhecido, as pessoas que vêm até mim já encomendam minha arte (desenho) e principalmente individuais. É mais difícil repetir desenhos, o que é bom porque posso criar muito mais.

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Diário: E os desenhos de Brasília?

Camila: Depois da convenção, o Brasília Tattoo Festival, as pessoas ficaram muito curiosas pelos meus desenhos. Eu gosto muito da cidade, então levei alguns desenhos inspirados no que eu gostava na cidade, como o sol por exemplo. Quanto mais pessoas foram conhecendo essas artes, mais pedidos recebi e aí foi crescendo o tipo de pedido por desenhos com a Catedral, a Ponte JK, os ipês…

Diário: Qual a diferença entre desenhar no papel e na pele?

Camila: Principalmente a textura, papel é liso, a pele não. A máquina também muda se comparar ao lápis, porque ela vibra. A anatomia também influencia. Mas saber desenhar é o fundamental, porque assim você não se perde no desenho e na perspectiva.

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Camila promove ações sociais em parceria com o abrigo Flora e Fauna, para conseguir doações de rações para pets uma vez por mês. Por isso também existem diversos trabalhos da artista envolvendo os bichinhos de estimação da galera.

A tatuadora também contou que adora quando tem a liberdade de criar um desenho do zero, criando assim algo mais específico para o cliente. Uma forma de fazer isso, é o cliente ter uma ideia base para a arte e Camila cria a partir disso, criando assim uma obra única para uma pessoa. Essa forma de entender a arte da tatuagem maravilha muitos amantes, por isso o número de pessoas com o corpo pintado vem crescendo ao longo dos últimos dez anos.

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A Super Interessante produziu, em 2016, o primeiro Censo de Tatuagem do Brasil. De 80 mil entrevistados e 150 mil tatuagens mapeadas, a maioria é jovem, têm ensino superior e ganham bem. Os números dos entrevistados trazem a porcentagem que deve ter aumentado de lá pra cá. Dentre estes, 59,9% são mulheres, 48,2% têm entre 19 e 26 anos, 61,2% são formados ou estão cursando o ensino superior e 43,5% não têm religião definida.

O espaço onde a arte -e mágica- de Camila Corrêa Tattooist acontece fica na Asa Norte. Os orçamentos podem ser feitos pelo e-mail: minha novatattoo@gmail.com e a agenda para dezembro já está aberta, se tiver interesse corra para garantir sua vaga. Curiosos que querem ver mais dos trabalhos da Camila, o perfil do instagram é @camilacorrea.tattooist.

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Fotos de divulgação próprias da equipe de Camila
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Escrito por

♦ Brasiliense com sangue do Pará, amante de moda, culinária, cinema e música. Sonhava em ser bióloga marinha, mas vem se provando mais jornalista do que achava. Escreve menos do que sua mente produz, mas a memória deixa a desejar. Curiosa e repórter, então saiba que tudo o que disser poderá se tornar texto novo. E se a encontrar, prove seu abraço... dizem ser o melhor do mundo. ♦

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