Racismo, patriarcado e feminismo: isso existe na sua religião?

Estava vendo um vídeo em que o racismo era o tema principal e ouvi a pergunta “quando você se reconheceu branco?” e “quando você se reconheceu negro?” e pensando em toda a desconstrução que ainda preciso fazer nesse tema, com questões mais íntimas, me peguei puxando isso para um lado religioso… “quando me reconheci católica, percebi meus privilégios? soube identificar os meus problemas relacionados à religião? …”

Há um tempo eu refletia muito sobre isso, ao mesmo passo em que passava por uma crise existencial muito forte. A pergunta do “por que estou aqui?” e “qual é o meu propósito?” me rondavam muito. Me reconheci uma pessoa muito ruim, com defeitos muito difíceis de lidar, como a grosseria e sinceridade afiada. Isso me fez repensar tudo.

Percebi que sempre me senti segura da minha fé por ser católica, a religião mais “aceita” na maior parte do mundo e tida como verdadeira por seus seguidores, colocando-os a sair por todo canto pregando e ensinando tudo sobre esta fé para converter outras pessoas. Entendo o porquê da minha religião ser assim, mas venho aprendendo muito sobre respeitar as escolhas das pessoas.

Por que cheguei a esse pensamento?

Bem, eu não sofri represálias ou perseguições por causa da minha religião. Nunca sofri bullying nem nada, nada, nadinha. Mesmo que não possa excluir que exista em alguns lugares e que muitos ainda morram por professar essa fé. Só que isso acontece em alguns lugares do mundo, aqui no Brasil é quase zero.

Isso, amigos, se chama privilégio.

Ao longo do tempo venho questionando alguns preconceitos e buscado conhecer outras religiões para não ofendê-las com coisas que dizemos sem perceber que são frases preconceituosas em que nos colocamos como melhores. Por exemplo, ver coisas na rua e falar que é macumba. Essas ações estão tão entrelaçadas a nossa forma de convivência que não percebemos os males que causam.

Quando olho para o meu ciclo social, me encontro numa bolha muito católica, conservadora, patriarcal, machista, e tantas outras coisas. Conforme fui crescendo e lidando com alguns conflitos, passei a me incomodar com certos comportamentos ou falas. Por isso, tento sempre sair dessa bolha me rodeando de pessoas diferentes. Abrir este espaço não significa abandonar suas crenças, mesmo que você comece a mudar seus pensamentos.

Algumas das coisas que mais me incomodam são:

  • O fato de conhecermos muito mais padres que carmelitas ou freiras. É muito comum que rapazes católicos sejam inclinados à vida religiosa, enquanto as moças católicas essa escolha tenha um peso muito maior apenas pelo motivo de serem as geradoras de vida, ganhando um peso de “procriar” que só as religiosas sentem.
  • Pecados femininos que caem na boca das pessoas aparentam ser muito mais graves que os masculinos. As moças que são mães solteiras sofrem muito mais represálias que os rapazes com vida sexual ativa e, algumas vezes, escondem isso. Claro que é perceptível em vários lugares, mas na igreja parece ser muito maior.
  • Rapazes usarem a “desculpa” da dúvida sobre seguir ou não a vida religiosa (ir para o seminário) para terminar relacionamentos ou nem começá-los de fato. Aproveitando da companhia de muitas moças enquanto isso.
  • Algumas celebrações em que se comunga as duas espécies, quando sobra vinho e precisa-se encontrar alguém na assembleia para beber o que resta, sempre se encaminham aos homens. Sempre.
  • Caso a roupa feminina esteja um pouco acima do joelho (não tão curtas que acabem junto com as nádegas), a atenção seja chamada, como bronca, e a imposição de se colocar algum casaco sobre as pernas. Enquanto cada dia mais homens estejam usando camisas e calças sociais mais coladinhas no corpo, ressaltando braços, bunda e coxas.
  • Quando numa homilia o padre fale que Deus escolheu as mulheres para dizer que Jesus havia ressuscitado, porque somos naturalmente fofoqueiras. Isso no contexto do evangelho que diz que “Maria Madalena e a outra Maria foram ao sepulcro e encontraram-no aberto, indo ao encontro de Pedro para avisá-lo”. Não é sempre, não são todos os padres, mas já cansei de ouvir isso.

Quando penso em feminismo e reflito sobre o que vejo e vivo na minha religião, encontro falhas que podem ser resolvidas e percebo o quão preconceituosa a igreja como instituição ainda é. Porém, consigo separar muito bem essa distinção entre igreja como instituição e igreja como portadora da fé. Mesmo ouvindo que estou errada. Parte desses pensamentos vieram ao assistir The Handmaid’s Tale.

Outra coisa bastante complicada é o número de rapazes homossexuais que, por entenderem como pecado, não aceitam esta debilidade (acho que os religiosos entendem assim) e não lidam com este conflito. O que resulta em sofrimento não só para eles, mas também para as moças com quem eles se envolvem, causando diversos problemas na relação que trazem sofrimento não só a eles.

Porém, o tema sexualidade é complicado… não é possível entrar em um acordo sobre como lidar com isso porque a religião é muito pontual e clara, enquanto os que não são religiosos discordam totalmente. O que quero levantar como questão é que quem tem conflito, dúvida ou não sabe o que realmente sente, precisa lidar com isso antes de envolver alguém nesse bolo de confusão interna. Nem sempre a obediência traz a paz, a não ser que haja uma inspiração divina e combate (desde que a pessoa escolha por isto) para que dê certo. Conheço diversos casos de homens homossexuais que se casaram e hoje são felizes, conseguindo se relacionar bem com a esposa. Porém, os casos de namoros com quem não lida com isso, resultando em depressão ao companheiro que não tem o mesmo conflito, sejam maiores.

Quando se fala em religião o conhecimento sobre cada uma deve ser grande o suficiente para que você se apoie nos argumentos, assim como em qualquer outro tema. Porém, vejo muita resistência nesse caso.

Esse foi o principal motivo pelo qual tentei adentrar na minha, reconhecer os problemas e abordá-los aqui, tendo em vista a quantidade de colegas que me acompanham que seguem a mesma religião, para que haja diálogo. Em casos de discordâncias ou complemento de observações, podemos dialogar nos comentários, respeitando sempre a opinião alheia.

Minha intenção é: olhar para mim antes de levantar o dedo e argumentar sobre as outras religiões, fazendo crescer a vontade de conhecê-las para não falar bobagem.

Peço apenas que, a quem não tem religião, possa olhar para esse assunto de outra forma. O catolicismo é muito simples, o que Deus (segundo nós católicos) pede é mais simples ainda, entretanto, nem todos entendem, procuram realizar ou aceitam. Olhar para algo que não se conhece, não se vive ou não se concorda deve seguir uma linha de raciocínio como: são pessoas com cabeças diferentes, são ideias diferentes. O que eles pensam se apoia em tais argumentos. Como eu acho que isso realmente é, tendo em vista que vivemos em bolhas diferentes?

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Escrito por

♦ Brasiliense com sangue do Pará, amante de moda, culinária, cinema e música. Sonhava em ser bióloga marinha, mas vem se provando mais jornalista do que achava. Escreve menos do que sua mente produz, mas a memória deixa a desejar. Curiosa e repórter, então saiba que tudo o que disser poderá se tornar texto novo. E se a encontrar, prove seu abraço... dizem ser o melhor do mundo. ♦

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