Cinema: estudo e profissão

O mercado cinematográfico em Brasília e Brasil após a Lei da TV Paga
por: Águida Leal e Naryelle Keyse

O cinema costuma contar muito mais que uma história de ficção para entretenimento. Quem se apaixona pela sétima arte aprecia a forma poética da vida, a forma mágica de contar diversas histórias e mexer com os sentimentos de quem assiste. O audiovisual consegue conquistar por conseguir falar com todos os públicos passando uma mensagem direta, ou com espaço à reflexão.

É comum ligar esta profissão à Hollywood e, no máximo, à ponte Rio-São Paulo. De fato, o cinema é parte do ar destes locais, mas a cada dia que passa outras cidades ganham espaço, como Brasília.

A capital nasceu do encontro entre diversos intelectuais e artistas de todo país nas áreas de arquitetura, política, economia e culinária, não sendo diferente com a cultura. Graças a Paulo Emílio Soares e Nelson Pereira dos Santos, pioneiros na cidade, tivemos o primeiro curso superior de cinema, na Universidade de Brasília e temos, atualmente, um dos festivais mais prestigiados do país.

unb
Universidade de Brasília | Arquivo UnB

A ex-estudante da Universidade de Brasília e que fala abertamente sobre o curso dando dicas de estudo, aborda suas experiências para ajudar outros jovens que têm vontade de trabalhar na área e compartilha críticas de filmes, é a youtuber, cineasta e apresentadora do canal Warner Channel, Carol Moreira.

carol_moreira
Carol Moreira | Tudo & Todas

Suas redes sociais sempre recebem muitas perguntas sobre sua área de formação levando-a a sempre responder todos em vídeos. Carol deixa claro a diferença entre grades curriculares entre instituições e para ela, a técnica ensinada em sala de aula é diferente da prática sendo na prática onde as coisas realmente acontecem.

Assim como toda profissão, a de cineasta é muito instável. No Brasil, as maiores oportunidades estão nas redes televisivas e jornalísticas principalmente em Rio de Janeiro e São Paulo. “Nunca trabalhei em produção de filmes, com o cinema mesmo. Trabalhei como continuísta em agências de publicidade em Brasília e em alguns curtas em São Paulo. É um meio muito difícil ainda, precisa ter contatos. O importante em toda área da comunicação é networking. Quanto mais pessoas você conhecer, mais fácil será conseguir vaga em certos lugares”, conta Carol. Quanto à remuneração, segundo a youtuber, os valores variam muito. No entanto, existem sindicatos que oferecem tabelas de valores específicos para cada tipo de trabalho em set.

Em seu canal no YouTube, Carol conta mais detalhes sobre a profissão de cineasta.

Uma das coisas que contribuiu para o crescimento do mercado cinematográfico brasileiro nos últimos anos, foi a necessidade dos canais de TV fechada em criar e produzir conteúdos novos. Essa necessidade surgiu em 2011, ao mesmo tempo em que a Lei da TV Paga  foi aprovada no Congresso Nacional.

grafico2
Certificado de Registro de Título (CRT)

O principal intuito dessa Lei é valorizar a cultura brasileira e incentivar uma nova dinâmica para produção e circulação de conteúdos audiovisuais produzidos no Brasil.

Um estudo publicado em 2017 pela Fundação Dom Cabral, revela que o setor audiovisual no Brasil cresceu 129% entre os anos de 2007 e 2014 e produziram mais 73,6% no mesmo período. Em entrevista ao portal G1, o presidente da Apro (Associação Brasileira da Produção de Obras Audiovisuais), Paulo Roberto Schmidt transfere esse aumento à Lei da TV Paga.

A carreira de cinema pode ser acessada de diversas formas, até mesmo pela publicidade como conta o professor Roberto Lemos. Ele é formado em publicidade e propaganda, pós-graduado em gestão da comunicação nas organizações, mestrando em Comunicação e roteirista premiado. Em entrevista a nossa equipe, ele conta sobre seus projetos cinematográficos e como tem sido os últimos trabalhos na área.

– Você é formado em Publicidade e Propaganda e vinha trabalhando com Marketing Digital antes desse avanço estrondoso. Como foi seu caminho da publicidade até o cinema?

São áreas muito próximas. Na publicidade, escrevi muito roteiro institucional para clientes. Um bom roteiro, independentemente se é comercial para a publicidade ou se é uma narrativa para o cinema, tem uma história por trás, por isso, considero que sempre escrevi histórias. A diferença de estrutura depende mais do tempo de tela do que da estrutura narrativa.

roberto_lemos
Roberto Lemos | Arquivo pessoal

– Como professor, tem notado maior interesse universitário nessa área?

Sim. Há um interesse crescente. E é natural, porque conteúdos brasileiros para cinema e plataformas digitais desempenham cada vez melhor. Com isso, amplia a visibilidade desse mercado, que entra no “radar” das pessoas. Fico feliz em ver esse interesse. O brasileiro é criativo e altamente conceitual, podemos explorar ainda mais esse nosso potencial e conquistar mais espaço internacional, como já aconteceu com a nossa telenovela e a nossa publicidade. Por falar em publicidade, a brasileira é uma das melhores do mundo. No último Festival Internacional de Criatividade de Cannes, as agências brasileiras ganharam 101 prêmios. E o desempenho destacado acontece ano após ano.

– Como você vê o mercado atual de cinema em Brasília? Ainda é preferível buscar trabalho apenas em Rio-São Paulo?

O eixo Rio-São Paulo concentra as principais oportunidades de trabalho, mas isso não significa a ausência de boas experiências profissionais aqui em Brasília. Eu, por exemplo, estou fazendo um trabalho com uma sala de roteiristas de Belo Horizonte. As reuniões são semanais e ocorrem por videoconferência. Essa é uma das maravilhas da internet. Posso trabalhar com equipes incríveis sem a necessidade da proximidade física.

– Como você começou a escrever roteiros e por que essa área do cinema?

Sou redator publicitário. E como tal, escrevo peças para mídia impressa e eletrônica. A experiência escrevendo roteiros publicitários para empresas, produtos e serviços me levou a querer escrever um roteiro para TV. Curti tanto que logo estava escrevendo outro, para cinema. O processo de escrita criativa é muito prazeroso. Depois que começa, não dá mais vontade de parar.

– O mercado do audiovisual brasileiro vem crescendo estrondosamente nos últimos anos. Acha que teremos ainda mais espaço na sétima arte?

Há muito filme sendo realizado no Brasil. E tem coisa de excelente qualidade. Acho que o próximo desafio do setor é dar mais visibilidade para nossas produções de cinema.

51161272_2391436054220463_4640818446588706816_n
Prêmio por Coração verde, roteiro de animação.

– Fala pra gente um pouco das suas conquistas atuais, vim acompanhando pelas redes sociais e são muitos prêmios recebidos por Michelângelo (roteiro para série de TV).

Primeiro, agradeço a oportunidade de divulgar isso. Foram sete premiações internacionais. Seis para Michelângelo, que é uma série, e uma para Coração Verde (Green Heart), que é um roteiro de longa de animação. Michelângelo foi selecionado em 20 concursos e festivais internacionais, em três continentes, mostrando a universalidade de sua temática. Coração Verde ainda está começando sua trajetória de concursos e festivais. Foi selecionado em quatro até agora. Espero que conquiste ainda mais espaço.

28660941_1926599260704147_434396505041100517_n
Prêmios por Michelângelo

– Falando nessa obra, podemos esperar que venha para a TV ou serviços de stream como a Netflix e Amazon?

O espaço para produções brasileiras está em franca ascensão e os roteiros se destacaram em diferentes concursos e festivais. Com isso, tenho boas expectativas em relação à produção. Mas como é tudo muito recente, ainda estou no estágio bem embrionário, de conversas com produtores.

– E por último, o que estudantes de comunicação ou aspirantes a cineastas podem esperar desse mercado em Brasília e no Brasil?

Acho que todos precisam pensar na amplitude do mercado. Temos o cinema, temos a TV, as mídias digitais… Enfim, são muitos os meios para divulgação de conteúdos. Um profissional dessa área pode estar confiante que está em um mercado pujante economicamente. Em 2018, somente a publicidade movimentou algo em torno de 2% de todo o PIB nacional. Não é pouca coisa. O audiovisual está em ascensão de forma geral. Além do mais, o Brasil é referência global em muitos mercados criativos. Eu, particularmente, sou bastante otimista em relação ao setor.

d58781c9eda4fc11861d10e4e9af013f

Em Brasília, o curso se espalhou e hoje é possível encontrar na já citada Universidade de Brasília e no IESB como graduação. O Centro Universitário de Brasília (UniCEUB) oferece o curso técnico de 2 anos em Audiovisual e o Centro Universitário Estácio de Brasília oferece pós graduação também em Audiovisual. Outras instituições oferecem cursos extracurriculares em cinema, audiovisual e TV.

Anúncios

Escrito por

Estudante de Jornalismo e brasiliense. Apaixonada por cinema, literatura, música, culinária e beleza. Com família paraense, das raízes indígenas, se criou em Brasília onde pode descobrir mais sobre o mundo e se apaixonou pela profissão que escolheu. Criou o Diário em 2014, quando decidiu manter vivas as poesias que mantinha em cadernos por anos.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s