A Síndrome do Impostor para uma estudante de comunicação

Um surto me tomou o peito e a mente. Uma eterna reflexão sobre a sociedade me faz questionar a forma que estou vivendo e se estou realmente aproveitando meu momento nesta terra. Me dei conta que, por observar a vida alheia pela internet, comecei a me cobrar viver coisas incríveis a todo momento.

Mas viver nos obriga a ter dias incríveis todos os dias?

Acho que posso listar quais dias foram melhores que outros, assim, sem pensar muito. Lógico que caso precise analisar toda a minha vida, talvez leve mais tempo. Porém, ainda que coloque meus vinte e seis anos em uma linha do tempo, ainda consigo enumerar meus melhores momentos.

Este fenômeno ganhou o nome de Síndrome do Impostor e vem ganhando discussões nos últimos meses. Este termo vem da psicologia e é usado para descrever um padrão comportamental baseado na dúvida frequente quanto as suas realizações pessoais e profissionais que julga serem fracas e são norteadas pelo constante medo de uma exposição fraudulenta pessoal.

Em resumo: é quando tens medo de ser descoberto e de apontarem os dedos para ti dizendo que você é uma fraude.

Na vida profissional de um universitário que está prestes a conquistar seu diploma, esta síndrome consegue ser ainda mais esmagadora.

Recentemente recebi respostas negativas após entrevistas de estágio em locais que desejava muito trabalhar. Percebendo que as vagas em jornalismo se resumem em relatórios e artes para redes sociais, assessoria de imprensa (que raramente são assessoria mesmo) e algumas fracas produções de texto me questionava até quando faria algo que um publicitário produziria melhor que eu. As entrevistas eram motivadoras, exceto quando aplicavam uma prova e, sinceramente, eu sou péssima com provas!

Além das inúmeras avaliações acadêmicas, trabalhos, cursos externos para aquisição de carga horária e projetos extracurriculares para melhorar a apresentação do nosso currículo, ainda precisamos ser avaliados quanto a nossos conhecimentos em assuntos que pedem mais dedicação. Isso não seria problema algum se todos os universitários conseguissem lidar com tudo o que disse anteriormente neste parágrafo. O problema é quando muitos procuram uma vaga em que ganhem um mais (já que muitos estágios pagam metade de um salário mínimo) para ajudar financeiramente em casa, ou até mesmo (e me incluo nesta opção) conseguir pagar a faculdade.

Relembrando um dos meus melhores momentos nesta curta vida, ele também foi um dos piores. Saí de Brasília para uma entrevista na tão amada São Paulo em uma das empresas internacionais mais conceituadas da área de esportes. Como disse, meu auxílio de estágio era todo para pagar a faculdade, por isso pedi ajuda aos meus pais. Uma jovem adulta em uma estrada durante a noite não era a coisa mais segura, segundo meu pai, fazendo-o decidir me acompanhar. Sorte a minha, porque a viagem de ônibus duraria doze horas, não fosse um assalto.

Mas não desisti. Mesmo que a viagem tenha durado quase um dia inteiro, tenham levado todos os pertences do meu pai, aquela seria uma boa história para o meu futuro. Ainda que a lembrança de uma arma apontada para a minha cabeça tenha me atormentado pelos quatro dias que passamos na grande capital, só conseguia lembrar-me de todos os caras motivadores em vídeos pela internet dizendo sempre para não desistir dos nossos sonhos.

Aquela noite da viagem foi, definitivamente, um dos piores dias da minha vida. Mas cheguei ao prédio onde transmitiram o primeiro beijo da televisão brasileira, hoje um grande estúdio desportivo. Sem nenhum material para apresentar, porque levaram nas nossas coisas, e ainda traumatizada, fiz dessa história uma grande motivação.

No momento da dinâmica em grupo, descobri que estava entre os 261 de 7.277 inscritos. Havia chegado tão longe numa seleção para a ESPN e pela primeira vez estava pensando em me arriscar na área de esportes. Não passei para a última fase, mas fui desafiada a ter criatividade, alimentaram minha imaginação, me fizeram produzir algo que nunca tinha feito e a ter contato com outras pessoas sem parecer uma competição. Muitos sonhavam por toda uma vida toda com aquela oportunidade, eu não era parte deles, mas via naquele desafio de não saber muito sobre tal especialização, aprender. Isso tornou aquele dia o melhor dia da minha vida.

Em compensação, ao voltar, participei de outra seleção para uma empresa nacional. O sonho parecia mais possível, eu já tinha experiência na área do radiojornalismo e me sentia um pouco mais confiante. Infelizmente a empresa aplicou uma prova que era bem similar ao ENEM, que eu nunca fiz por ter sido aprovada no vestibular tradicional antes. Me perguntaram tanta coisa que não sabia por onde começar, como responder e de tão nervosa não lembrava de nada. Esse dia foi, definitivamente, um dos piores da minha vida.

Após ser dispensada de mais algumas entrevistas, mergulhei de cabeça em assuntos que achava complicado como política, crises internacionais, economia, guerras no Oriente Médio, história brasileira e tantas mais. Me dediquei ao que já gostava e entendia como teatro musical, cinema e artes gráficas. Mas não conseguia encaixar nada disso ao estágio em assessoria de imprensa, onde produzia relatórios.

Ser foca neste mundo corporativo é intimidador, causa insegurança e sempre nos traz dúvidas sobre nosso potencial, se estamos realmente prontos para o mercado e se estamos vivendo direito. A crise dos vinte e poucos aflora, a síndrome do impostor também. Mas um assalto traumatizante numa estrada para uma entrevista pode mudar uma vida.


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