nada vai nos calar

Querido diário,

Quando eu era pequena, ouvi alguém dizer que preto era feio. Que cabelo cacheado ou crespo eram ruins. Que negro só tem a pele boa ou o corpo bem definido. Ouvi gente muito próxima dizer “não quero ver você namorar preto”. Quando eu tinha uns seis anos, alguém me perguntou se eu era negra e eu recusei na hora… disse “não! eu sou parda!”. Na segunda série um menino, vale ressaltar que de pele mais escura um pouco que a minha, disse não querer sentar ao meu lado por causa da minha cor. A professora era negra. Tive um namorado que não gostou quando eu disse que ele tinha lábios bem cheios e que a família dele poderia ter sangue negro. Ele fez um escândalo. Por causa desse cara, que não pegava sol pra não ficar muito vermelho ou bronzeado, eu achei que não deveria pegar sol também.

Sabe o que é mais louco? É que eu não lembrava que a minha árvore genealógica é preta.

Há uns três anos venho pesquisando a negritude. Assisti a alguns documentários onde pessoas negras explicam colorismo, explicam biotipos e mostram que a cor da pele é apenas mais uma característica, assim como um sinal ou cicatriz no corpo. Ao ouvir os depoimentos de pessoas pretas, olhei no espelho e me vi como uma pessoa que não aceitava quem era e nem de onde vinha. Meu cabelo estava liso a força por pelo menos 13 anos. Eu desejava ganhar dinheiro e fazer uma rinoplastia. Não sei em qual momento aconteceu meu processo de me enxergar negra, mas aconteceu.

A mudança mais lenta, e ao mesmo tempo radical, que tive foi tirar a química do meu cabelo. Eu odiei ele por alguns meses após o fim da transição até conseguir ver beleza nos meus cachos. Mas sabe aquela sensação de sair do banho e sentir seu corpo refrescante? Tive uma sensação muito parecida quando meu cabelo esteve completamente cacheado e finalizado pela primeira vez.

O primeiro reflexo de uma mulher com cabelos escuros, cheios de cachos, com volume e com frizz no espelho me fez chorar. Parte de mim estava negando quem eu sou e, naquele momento, eu me abracei. Amei quem eu vi. Me reconheci ali.

Ironicamente, na mesma época, minha mãe precisou fazer um exame genético (devido a um câncer e por ela ser filha de um casamento entre primos) e foi comprovado que ela é 70% negra. Minha mãe tem pele clara. Desse dia em diante muita coisa ficou pulsando na minha cabeça.

Comecei a pesquisar minhas origens. Sempre soube que meu pai é filho de índio e filha de um português. Minha bisavó caçava tartaruga na Amazônia… então sempre soube que metade de mim era indígena. Meu pai chegou a viver até os 7 anos na Ilha do Marajó, Pará. Mas nunca soube muito sobre os pais da minha bisavó.

Mas daí comecei a me perguntar sobre a família da minha mãe.

Descobri que o avô da minha avó era negro, retinto, nascido livre. Pelo que entendi, a mãe dele chegou a ser escrava. Minha avó tem 70 anos hoje, então podemos ter noção de que meu tataravô deve ter vivido nas últimas décadas de 1800, já que pelas minhas contas minha bisavó nasceu em 1936 (que, pasmem, foi 48 anos após a Lei Áurea).

Não é tão distante pensar nessa árvore genealógica…
Mãe
Avó
Bisavó
Tataravô
Pais do meu tataravô viveram durante a abolição

E é por isso que as pessoas ainda batem o pé e afirmam que não tem tanto tempo assim. A escravidão acabou há menos de 200 anos. As gerações surgem a cada 50 anos. Não tem nem 4 gerações que tenham nascido livres.

Quando cheguei nesses dados, mesmo que aproximados e sem tanta certeza, me doeu. Me doeu imaginar alguém tão importante para o meu nascimento, só em 1993, poder ter sido acorrentado, vendido, maltratado, humilhado…

Foi nesse momento que eu me enxerguei como negra e entendi tudo o que tinha vivido anos atrás como reflexos de racismo. Vi beleza na cor da pele negra. Vi beleza nos traços de rosto, corpo, cabelo. Quis ter filhos negros e me imaginei mãe de meninos negros e me doeu assistir mortes, sem motivo, de meninos negros. Me doeu enxergar como reneguei os meus traços negros. Enxerguei pequenos momentos de racismo que sofri e me perguntei como seria se minha imagem fosse ainda mais próxima da maioria que mais sofre.

Em março de 2020 eu fui ao show do Maroon 5 em Brasília. Eu estava empolgada porque a banda marcou muitos momentos com minha mãe, sobretudo quando passávamos 5 dias por semana sozinhas porque meu pai trabalhava em Goiânia e só vinha nos finais de semana. Mas, principalmente, quando ela estava com o câncer… a gente ouvia as músicas deles. Então a banda sempre teve um significado pra mim. No dia do show, não me deixaram entrar no estádio. O meu ingresso era de camarote. Não me deixaram entrar porque eu estava com uma mochila. O segurança estava me barrando enquanto uma mulher loira, branca e visivelmente melhor que eu de condições financeiras, entrou com uma mochila. Meu amigo teve que pagar estacionamento para que eu pudesse guardar minha mochila pra gente poder entrar. Me diz o que isso soou pra você, porque pra mim foi racismo.

Nos últimos dias venho sofrendo muito. Minha saúde mental já está bastante afetada por causa do isolamento social. Tem muita pressão da faculdade e do trabalho para manter uma boa entrega, bons resultados e boa execução do que pedem e eu não consigo sair da frente do computador durante horas. Meu sono está desregulado há um mês. Acordo ao meio dia, durmo às 4h. Quando tenho aula às 8h, passo mal o resto do dia.

E no meio desse caos…

Já vivemos revoluções industriais, tecnológicas, já vencemos duas guerras mundiais, já vencemos guerras entre nações, já vencemos crises econômicas mundiais e mudanças de moedas nacionais, já vencemos pandemias mortais, já vencemos viagens para fora do planeta…

Mas a coisa mais difícil e que ainda não vencemos foi o racismo e o preconceito.

O direito de viver a vida como indivíduos, conforme nosso intelecto pessoal nos dita, é permitido conforme alguns acham correto. Ainda existem pessoas que querem explicar como alguém deve viver, se relacionar, rezar ou não acreditar em nada. Ainda tem gente que acredita ter poder eterno, mesmo que seu pequeno poder dure apenas 4 anos. Ainda tem gente que acha ter direito de dizer quem deve morrer, como deve morrer e quando deve morrer. Ainda tem gente que mata por não aceitar ser contrariado. Ainda tem gente que acha que pode obrigar todos a pensarem como julga correto.

Me pergunto para onde caminhamos. Dependendo de para onde for, quero optar por não ser parte desse mundo. E se eu tiver que optar, pode ter certeza que nenhum gás de pimenta vai me calar. Nada vai nos calar.

Autor: Aguida Leal

Olá, meu nome é Águida Leal, tenho 26 anos e criei esse blog para compartilhar minha visão romântica da vida. Minhas paixões me guiam a momentos únicos e percebi que as pessoas gostam de ler sobre cada experiência romântica que a vida me dá.

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