O cinema nunca mais será o mesmo (e isso é bom)!

A pandemia apenas acelerou uma mudança significativa e necessária no consumo de filmes

O cinema encanta e espanta pessoas desde o seu surgimento. A emoção da plateia de A chegada do trem na estação, de 1896 e Viagem à Lua, de 1902, é a mesma de Vingadores: Ultimato, de 2019. E não, isso não é uma comparação entre os Lumière, Méliès e os Russo, mas uma constatação de que a quintessência do cinema é a emoção causada pelo filme – uma sucessão organizada de frames, planos, cenas, sequências e atos, em um casamento perfeito entre imagem e som. Dito isso, que tal retirar o elefante da sala de vez? O cinema está se transformando no streaming?

O ano era 2010. Me lembro de frequentar o 3º semestre de publicidade e afirmar, em uma roda de conversas, com a certeza de um adolescente: “O cinema NUNCA vai mudar. Digital? Gosto de ter minha coleção de fitas VHS e até aceito o DVD, mas para alguns filmes, prefiro ir ao cinema. É uma experiência inigualável, e isso nunca vai mudar”. Cinema e TV por assinatura eram, para mim, coisas tão distintas quanto água e vinho. Naquele ano, a Netflix daria um importante passo rumo ao futuro, mudando seu negócio de aluguel de filmes físicos (VHS, DVD e Blu-ray) para o streaming.

Corta para março de 2019. Ao desembarcar de um vôo em Fortaleza, a primeira notícia que recebo no push do smartphone é sobre Steven Spielberg, se posicionando contra a Netflix. A polêmica era quanto aos filmes que estreavam apenas em streaming concorrer ao Oscar. Parecia-lhe razoável, naquele momento, que a Netflix deveria concorrer ao Emmy, que é uma das maiores premiações da TV, e não ao Oscar, a maior premiação do cinema mundial. Àquela altura, Roma (2019), da Netflix, já havia ganhado o Globo de Ouro daquele ano. Esse também foi o ano de estreia de Disney+ e Apple TV+ no streaming, se juntando à Netflix, Amazon Prime Video, Hulu, e tantos outros serviços.

Observando o cenário atual, pode parecer que o serviço de streaming é meramente uma atualização dos serviços de TV por assinatura, que já contavam com serviço on demand há algum tempo, mas nem tudo é o que parece, pois o streaming é mais. Além de democratizar o acesso aos acervos devido ao preço muito abaixo do praticado pelas TVs por assinatura, com opções partindo de R$9,90, e pulverizar qualquer argumento a favor da pirataria, o streaming tornou-se uma janela para obras que outrora jamais teríamos acesso. E fica cada vez mais claro que o volume de obras abriu portas para novos nomes da indústria mostrarem o seu trabalho em um cenário que apenas os grandes players tinham “cartas” para jogar. Você consegue imaginar O Diabo de Cada Dia estrear no cinema e competir em bilheteria com o crescente cinema blockbuster?

O fato é que a pandemia acelerou o processo de abertura de streamings. Note que falei abertura, não migração. Sim, o cinema mudou para sempre, mas ele não foi engolido pelo streaming. O que Spielberg e tantos outros diretores não entenderam, é que esse cinema de valores inflados com gasto de 450 milhões e arrecadação de quase 3 bilhões de dólares, continuará existindo. Observe o recente recorde batido por Avatar, que retomou o posto de maior bilheteria de todos os tempos.

Filmes que possuem linguagem desenhada na emoção visual também continuarão a ser exibidos no cinema, competindo como sempre competiram por um espaço no disputado bolso da audiência.

Agora, há filmes que simplesmente não têm apelo suficiente para esse espaço – seja por partir de uma visão muito particular do diretor, seja por não ter apelo comercial (a lógica é simples: filmes mais curtos permitem mais ingressos vendidos por sala em um mesmo dia) ou por simplesmente não serem tão bons. Alguém realmente imagina assistir O Irlandês (2019) ou Liga da Justiça – Snyder Cut (2021) no cinema?

Goste ou não, o fechamento das salas de cinema (cortesia da pandemia) abriu espaço para o novo. Nova forma de consumir, nova forma de planejar os gastos, e nova forma de pensar cinema.

O cinema é mais do que o espaço físico, é o processo de consumo, vai da escolha do filme à forma como isso conversa com seu âmago. Pense na forma que você assiste o filme. Tem um processo? Um ritual? O streaming é cinema e tv ao mesmo tempo, mas o processo de consumo de ambos é diferente. Lembro-me claramente do meu processo para assistir Caixa de Pássaros (2018), da Netflix: convidei algumas pessoas, fiz pipoca de micro-ondas, apaguei as luzes, assistimos ao trailer do filme e depois ao filme em si. O processo foi semelhante ao Fragmentado (2016), que assistimos no cinema.

O cinema não morreu, nem nunca morrerá. A experiência é inigualável, seja qual for o seu gênero favorito. Em que outro lugar da terra você pode assistir naves espaciais, aliens, dinossauros, heróis e guerreiros medievais se digladiando? O motor dessa arte será sempre o mesmo – a emoção. Em 1940 chegaram aos cinemas Pinóquio e O Grande Ditador. Filmes hoje considerados velhos, datados, sem timming e até “feios”, frente aos filmes de altíssima definição em 4k. A primeira vez que assisti a ambos, chorei. Um aos 8, outro aos 17.

Afinal, se não nos emociona, por que fazer cinema?

Autor: Willian Rodrigues

Jornalista, 33, autor do blog PlugMovie, apaixonado por cinema e cultura pop! #TechGeek #EcoFreak #GameAddict

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