Circunstância de Dois Estranhos

O Oscar escutou as diversas vozes que gritaram “Vidas Negras Importam” durante o ano de 2020

Dois Estranhos | Créditos: Divulgação / Netflix

São diversas as obras que ressoaram as vozes da rua, e levaram para a ficção um recorte da violência que a população negra vive dia após dia. Seja no Brasil ou nos Estados Unidos, os números mostram que a população negra (muitas vezes pobre) é alvo da violência policial. Falo mostrando os dados, mas acima de tudo, como homem negro, que percebeu cedo que não importam suas roupas, seu cabelo, nada, quando a nossa cor grita alto aos olhos do racista.

Três obras saltam aos olhos, elevando o tom do debate para uma profundidade no mínimo necessária. Dois Estranhos, dos diretores Travon Free e Martin Desmond Roe, ganhou o Oscar de melhor Curta Metragem. Pompa e Circunstância, décimo episódio da série Distanciamento Social, da Netflix, mostra uma colisão de gerações com formas distintas de enfrentar o preconceito. Já Lovecraft Country usa o racismo apenas como pano de fundo, em uma trama de época digna da HBO. Em comum, todas tem protagonistas negros que enfrentam uma batalha que extrapola a ficção.

Lovecraft Country | Créditos: Divulgação / HBO Brasil

Sim, o Oscar está dando passos tímidos para premiar os melhores trabalhos do ano, de fato, independente de cor, raça e sexo, mas há muito espaço para reparação e justiça. Em 93 edições, apenas 7 mulheres (6 delas, brancas) e 6 homens negros foram indicadas para melhor direção. Desses, apenas 2 mulheres venceram. E se você notou que não há indicações para diretoras negras, isso não é uma mera coincidência, pois a luta não é apenas no Oscar, mas até por um lugar ao sol na apresentação de roteiros e histórias, a exemplo de Dee Rees, roteirista e diretora de Mudboung: Lágrimas sobre o Mississippi.

Essa luta constante, também presente em Judas e o Messias Negro, é algo que torna as obras de 2020 ainda mais mais chocantes, quando a arte imita a vida. Em Dois Estranhos, Carter (Joey Bada$$) grita “I Can’t Breath” (não consigo respirar) enquanto um policial o asfixia. E é impossível não lembrar que, durante 9 minutos, George Floyd gritou pelo mínimo para sua sobrevivência – ar. O mesmo ar que falta nos pulmões de muitos quando veem um irmão sofrendo. Essa angústia lembra de dois personagens recentes e importantíssimos para identidade negra na cultura pop. Fugindo do ano de 2020, quem não se lembra da frase de Killmonger (Michael B. Jordan) em Pantera Negra?

Jogue-me no oceano com meus antepassados que pularam dos navios, porque sabiam que a morte era melhor do que a escravidão.

Ou do discurso emblemático de Anansi (Orlando Jones) no segundo episódio da primeira temporada de Deuses Americanos, O Segredo das Colheres:

No momento em que esses holandeses puseram os pés aqui e decidiram que eram brancos, e vocês teriam que ser negros, e esse é o nome gentil que eles os chamam. (…) E eu ainda nem comecei. 100 anos mais tarde, vocês estarão *****. E depois, 100 anos depois disso, *****. 100 anos depois de vocês serem libertados, e vocês ainda vão estar se ***** sem trabalhos e sendo baleados pela polícia. Ouviram o que eu disse?

E mesmo que tais discursos sejam tão poderosos, conscientes e viscerais, o mais potente talvez ainda seja o único não roteirizado, dito por um homem negro, que por circunstância do destino, deixou de ser uma única voz. Por mais premiações para trabalhos que valorizem e evidenciem a vida negra, tantos quantos forem necessários, até que não os sejam, pela justiça alcançada.

Não consigo respirar.


ONDE ASSISTIR AS OBRAS CITADAS?

  • Dois Estranhos (2020) – Netflix
  • Pompa e Circunstância – Netflix
  • Lovecraft Country – HBO Go
  • Pantera Negra – Disney+
  • Deuses Americanos – Amazon Prime Vídeo

Autor: Willian Rodrigues

Jornalista, 33, autor do blog PlugMovie, apaixonado por cinema e cultura pop! #TechGeek #EcoFreak #GameAddict

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