Mulheres na CPI: a ausência de uma voz

A presença feminina no Congresso tem sido a maior de todos os tempos, mas a exclusão em investigações e decisões importantes têm continuado, além do machismo por parte dos colegas homens parlamentares.

Em sessão, as senadoras Simone Tebet (MDB-MS) e Eliziane Gama (Cidadania-MA) se cumprimentam | Foto: Agência Senado/Marcos Oliveira/Reprodução

Dado o início da CPI da Covid pela responsabilidade dos gestores públicos no que diz respeito à administração da crise sanitária, pudemos olhar o machismo escancarado na formação da Comissão. Um tema tão relevante, que segundo pesquisas tem afetado mais as mulheres em razão da carga de cuidado que a elas é atribuída, está sendo investigada por um grupo de 18 homens e sequer uma mulher.

A ausência de uma voz feminina na CPI demonstra uma das faces da Violência Política de Gênero não física e simbólica que consiste na exclusão das mulheres dos espaços de poder, decisão e fala, tornando-as invisíveis. 

Mesmo assim, a bancada feminina conseguiu, por meio de um acordo, que uma representante do grupo possa fazer perguntas aos convidados e convocados para a investigação. A senadora Simone Tebet (MDB-MS), líder da bancada feminina, fez questão de afirmar que “a bancada feminina se faz presente sim nesta comissão mesmo sem direito a assento”. No entanto, as senadoras não poderão apresentar nenhum requerimento, nem votar.

As mulheres tiveram participações fenomenais, importantes e surpreendentes na fila de perguntas, com argumentações e falas consistentes. A questão é que quando uma mulher fala firme na CPI, praticamente de forma imediata surge um senador para pedir “calma” ou “serenidade”. Além de pedir calma, como faz o presidente da CPI, Omar Aziz (PSD-AM), existem interrupções por parte de senadores envolvidos na investigação. E, quando são homens, muitos deles gritam ou até trocam xingamentos mas continuam sendo aplaudidos e considerados “fortes” ou “contudentes”.

Em recente entrevista à BBC News Brasil, a senadora Tebet relatou diversas situações pelas quais passou no Congresso, destacando que “na política, precisou mudar seu comportamento (como aprender a falar mais alto para poder ser ouvida, saber bater na mesa, saber enfrentar de igual para igual)”, como se tivesse que deixar suas qualidades femininas, aprender a se comportar como homem e esse era o custo para alcançar um cargo político.

A atual legislatura tem o maior número de parlamentares mulheres na história, o que torna ainda mais inaceitável o que acontece com as senadoras nas sessões. Houveram insinuações de senadores que as mulheres não fazem questão de participar da CPI, mas todos sabem que os membros são escolhidos pelos partidos e não por manifestação de interesse.

A presença de mulheres na política é importante para todas as brasileiras e devem ser uma luta de todas, principalmente em momentos que podem mudar o rumo do que ocorre no país, como a CPI da Covid.

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Autor: Ellen Travassos

Graduanda em Jornalismo no Uniceub. Tem passagem pelo Ministério do Meio Ambiente, Detran-DF e Poder360. Tem experiência em simulações das Nações Unidas, nos quais coordenava alunos no desenvolvimento de pequenos periódicos.

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